A Operação Chargeback colocou em evidência uma modalidade de fraude que não dependia de invasões de sistemas ou roubo de dados. Segundo a Polícia Civil de São Paulo, que realizou a operação nesta terça-feira (09/06), os suspeitos simulavam negociações dentro do Mercado Livre para retirar recursos da plataforma antes que as cobranças fossem canceladas.
O caso resultou em cinco prisões e levou investigadores a apontarem um casal de pastores como organizador do esquema. Os dois estão foragidos na Espanha, enquanto outro investigado foi localizado nos Estados Unidos. O prejuízo estimado da frauda na plataforma de vendas chega a R$ 263 mil.
O que diferencia a investigação é a estrutura da fraude. Em vez de enganar vendedores ou consumidores, o grupo teria utilizado compradores e vendedores ligados à própria organização para movimentar dinheiro dentro do sistema de pagamentos da plataforma.
Como funcionava o golpe de chargeback no Mercado Livre revelado pela operação
A investigação aponta que os organizadores criavam anúncios de produtos que nunca existiram ou geravam links de pagamento dentro do Mercado Livre.
Esses anúncios eram enviados a comparsas, que realizavam as compras utilizando cartões de crédito. Após a aprovação da operação, os valores eram liberados para contas associadas aos supostos vendedores.
Na etapa seguinte, os próprios compradores contestavam as cobranças junto às administradoras dos cartões. Com o estorno aprovado, o dinheiro deixava de ser repassado ao sistema de pagamentos, enquanto os recursos já haviam sido transferidos para contas ligadas ao grupo.
Segundo os investigadores, a fraude dependia justamente da participação coordenada dos dois lados da transação.
Para resumo, esquema chargeback apontado pela operação da Polícia Civil de SP seguia uma sequência simples:
- Criação de anúncio ou link de pagamento;
- Compra realizada por integrante do grupo;
- Liberação do valor ao vendedor;
- Transferência dos recursos para contas indicadas;
- Contestação da compra junto ao cartão;
- Aprovação do estorno.
O resultado era uma operação aparentemente legítima que permitia retirar dinheiro antes da conclusão das verificações financeiras.
Por que a fraude chamou atenção do Mercado Livre
A investigação começou após uma denúncia feita pelo próprio Mercado Livre, que identificou movimentações consideradas incompatíveis com operações normais da plataforma.
Segundo a empresa, nenhum comprador ou vendedor sofreu prejuízo financeiro. Os valores envolvidos foram absorvidos pelo próprio marketplace.
Esse detalhe ajuda a explicar a relevância da operação Chargeback. O alvo principal não eram usuários individuais, mas a estrutura financeira que sustenta as transações dentro da plataforma.
Em marketplaces, a velocidade dos pagamentos é um diferencial competitivo. Ao mesmo tempo, a liberação rápida de recursos cria desafios para a identificação de operações artificiais. Além disso, a empresa informou que mantém equipes dedicadas à prevenção de fraudes em compras online e utiliza sistemas de inteligência artificial para monitorar transações consideradas suspeitas.
O que a Operação Chargeback revela sobre as novas fraudes digitais
A fraude investigada ocorreu em dezembro de 2024, mas a Polícia Civil busca identificar se outras empresas podem ter sido vítimas de mecanismos semelhantes.
O caso também mostra uma mudança no perfil dos golpes digitais. Em vez de explorar apenas falhas tecnológicas, organizações criminosas passaram a buscar brechas em processos financeiros legítimos.
Nesse modelo, o objetivo não é obter produtos ou acessar contas de terceiros. O foco está na movimentação do dinheiro durante o intervalo entre a aprovação da compra e a conclusão das análises das administradoras de cartão.
A investigação ainda apura os crimes de estelionato e associação criminosa. Enquanto tenta localizar os suspeitos que deixaram o país, a polícia também busca verificar se a mesma estrutura foi utilizada contra outras plataformas de comércio eletrônico.
Por isso, a Operação Chargeback vai além de um caso isolado de fraude no Mercado Livre. A investigação expõe como grupos organizados passaram a explorar mecanismos criados para proteger consumidores, transformando sistemas de segurança em instrumentos para movimentar recursos de forma ilícita.





