A autorização concedida à Shell para explorar e exportar gás natural na Venezuela representa mais do que a entrada de uma multinacional em um novo projeto energético. A medida abre caminho para desenvolver reservas que permaneceram praticamente sem aproveitamento comercial durante mais de duas décadas.
O projeto envolve o campo Loran, uma das principais áreas de gás natural do país. Após 23 anos de inatividade, o ativo volta ao radar em um momento em que a Venezuela busca transformar recursos naturais pouco explorados em receitas de exportação.
O movimento chama atenção porque ocorre em uma economia que concentra sua produção energética no petróleo. Agora, o governo tenta criar uma nova fonte de dólares aproveitando reservas de gás que ficaram sem desenvolvimento durante anos.
Shell assume ativo que ficou duas décadas sem gerar receita na Venezuela
A licença permite que a Shell avance na exploração do campo Loran, que reúne sete jazidas de gás natural. Seis delas estão localizadas em áreas compartilhadas com Trinidad e Tobago.
Segundo a presidente interina Delcy Rodríguez, o projeto permaneceu abandonado por décadas. Nesse período, o campo deixou de contribuir para exportações, arrecadação e geração de investimentos em uma economia que enfrentou sucessivas crises.
A participação da Shell muda essa equação na Venezuela. A companhia possui experiência em projetos de gás natural e acesso a mercados internacionais capazes de absorver a futura produção.
Quanto vale o gás que ficou parado por 23 anos
O campo Loran está entre os ativos mais relevantes da estratégia venezuelana para ampliar sua presença no mercado de gás natural.
Estimativas do setor apontam que a área contém mais de 7 trilhões de pés cúbicos de gás natural, volume suficiente para sustentar operações de longo prazo e abastecer projetos de exportação.
O potencial econômico não está apenas nas reservas. A localização próxima a Trinidad e Tobago cria uma oportunidade de utilizar infraestrutura energética já existente na região, reduzindo parte dos investimentos necessários para levar o gás ao mercado internacional.
Esse fator ajuda a explicar por que o governo venezuelano considera o projeto uma das iniciativas mais promissoras do novo ciclo de abertura do setor energético.
A nova aposta da Venezuela além do petróleo
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas boa parte de sua política energética sempre esteve concentrada nesse recurso.
Nos últimos anos, porém, o gás natural passou a ganhar importância por representar uma alternativa de diversificação das receitas externas.
A estratégia busca reduzir a dependência exclusiva do petróleo e aproveitar um mercado global que continua demandando gás para geração elétrica, indústria e exportação de gás natural liquefeito (GNL).
Nesse contexto, o campo Loran surge como um dos principais candidatos a liderar essa transição.
Reforma dos hidrocarbonetos abriu espaço para o retorno das multinacionais
A entrada da Shell ocorre após a aprovação da nova lei de hidrocarbonetos promovida pelo governo da Venezuela.
A reforma ampliou a participação de empresas privadas e criou condições para atrair investidores internacionais que permaneceram afastados do país durante anos.
Além da Shell, grupos como BP e Repsol também avançaram em negociações e projetos ligados à exploração energética.
A mudança coincidiu com um processo de flexibilização de parte das sanções americanas, aumentando o interesse de empresas globais por ativos venezuelanos que permaneceram pouco explorados durante décadas.
Por que o projeto pode marcar uma nova fase econômica
Especialistas do setor energético alertam há anos que a Venezuela desperdiça grandes volumes de gás natural por falta de infraestrutura e investimentos.
O resultado foi uma combinação de perdas econômicas e impactos ambientais associados à queima ou liberação de gás sem aproveitamento comercial.
O desenvolvimento do campo Loran busca transformar esse passivo em fonte de receita. Em vez de permanecer como uma reserva subutilizada, o ativo passa a integrar uma estratégia voltada à geração de exportações e entrada de moeda estrangeira.
Se os planos avançarem, a licença concedida à Shell poderá ser lembrada não apenas como um acordo empresarial, mas como o início da tentativa de converter um recurso que ficou parado por anos em uma nova frente de crescimento para a economia da Venezuela.





