O mercado de trabalho europeu começou 2026 em um ritmo distinto daquele observado logo após a pandemia. Ao longo da última semana, dados do Banco Central Europeu (BCE) indicaram que o crescimento do emprego na zona do euro deve desacelerar para 0,6% neste ano, abaixo dos 0,7% registrados em 2025, refletindo um ambiente econômico mais restritivo.
Embora a diferença pareça limitada, cada variação de 0,1 ponto percentual representa cerca de 163 mil vagas a menos criadas no bloco. Há apenas três anos, a zona do euro gerou aproximadamente 2,76 milhões de empregos, quando o avanço anual alcançou 1,7%, impulsionado por estímulos fiscais, demanda reprimida e reorganização das empresas após a covid-19.
Mercado de trabalho europeu e a mudança de humor
Durante a pandemia e nos meses seguintes, políticas de licenças remuneradas e redução de jornada deram fôlego às empresas e ampliaram a margem de negociação dos funcionários. Esse cenário sustentou fenômenos como a “Grande Demissão” e a busca por rotinas mais equilibradas.
Para consultores, o quadro atual é outro. A menor quantidade de vagas abertas e um contexto econômico mais desafiador tornaram os profissionais mais cautelosos ao considerar uma troca de emprego. Esse comportamento passou a ser descrito como “Grande Hesitação”, tanto do lado das empresas quanto dos trabalhadores.
A migração, que ajudou a aliviar a escassez de mão de obra em vários países europeus, também perdeu intensidade, reduzindo um fator que sustentava a oferta de trabalhadores nos últimos anos.
Indústria pressiona o emprego na Europa
A Alemanha tornou-se um termômetro desse ajuste no mercado de trabalho europeu. Mais de um terço das empresas do país planeja cortar postos de trabalho em 2026, de acordo com o instituto econômico IW. O setor industrial lidera as perdas, com mais de 120 mil vagas eliminadas recentemente em áreas como automóveis, máquinas, metalurgia e têxteis.
Pressões semelhantes aparecem em outras economias relevantes. O Banco da França projeta desemprego de 7,8% no país, enquanto no Reino Unido economistas consultados pelo The Times estimam alta para até 5,5%. Na Polônia, a taxa subiu para 5,6% em novembro, ante 5% um ano antes.
Esse ambiente afetou a confiança empresarial. O Índice de Gerentes de Compras (PMI) da indústria da zona do euro recuou para 48,8 em dezembro, sinalizando contração da atividade.
Mercado de trabalho europeu diante da IA
A discussão sobre o mercado de trabalho europeu ganhou outra camada com o avanço da inteligência artificial. Um estudo da EY aponta que 25% dos trabalhadores temem perder seus empregos para a tecnologia, enquanto 74% acreditam que as empresas precisarão de quadros menores.
O Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB) projeta que até 1,6 milhão de postos na Alemanha podem ser remodelados ou eliminados pela IA até 2040. Enzo Weber, responsável pelas previsões do instituto, afirma que a tecnologia tende a alterar funções, não necessariamente reduzir a oferta total de trabalho.
Para John Springford, do Centro para a Reforma Europeia, a automação pode transferir tarefas repetitivas para sistemas inteligentes, preservando atividades profissionais e intelectuais.
O mercado de trabalho europeu entrou em uma etapa de ajustes finos, marcada por menor apetite a riscos, revisão de estratégias industriais e receios ligados à automação. O cenário não indica paralisação, mas inaugura um período em que empresas e profissionais conduzem decisões de contratação e carreira com mais prudência, substituindo a urgência que marcou o pós-pandemia.











