Preço do gás na Europa sobe mais de 25% após tensão em Ormuz

O preço do gás na Europa sobe mais de 25% após tensão em Ormuz, com estoques em 30% e risco de TTF chegar a €50/MWh. Dependência de GNL amplia vulnerabilidade estrutural do bloco.
Preço do gás na Europa impactado por tensão em Ormuz
Suspensão de embarques pelo Estreito de Ormuz pressiona mercado europeu de gás. Imagem: Canva

O preço do gás na Europa saltou mais de 25% em poucas horas, após a escalada militar envolvendo Irã e Israel afetar o tráfego energético no Estreito de Ormuz. O contrato de referência no hub TTF holandês avançou quase €8, alcançando €39,96 por megawatt-hora (MWh). Em Londres, o vencimento de abril superou 100 pence por termia.

A alta não decorre apenas do confronto armado, mas da decisão de armadores e grandes tradings de interromper embarques de petróleo bruto, combustíveis e gás natural liquefeito (GNL). Cerca de 20% do GNL global passa por Ormuz. A restrição imediata reduziu a oferta disponível para a bacia do Atlântico, pressionando cotações. A tensão, contudo, ganha dimensão maior quando se observa a dependência estrutural do continente.

A substituição do gás russo criou nova dependência

Após reduzir gradualmente o fornecimento russo, a União Europeia ampliou compras de GNL importado, sobretudo dos Estados Unidos e do Oriente Médio. Segundo Ole Hvalbye, da SEB, entre 8% e 10% das importações europeias têm ligação indireta com fluxos que cruzam Ormuz.

Isso significa que qualquer bloqueio parcial altera a disputa global por cargas. Compradores asiáticos tendem a elevar ofertas por navios americanos, comprimindo o mercado europeu. Para além da reação imediata dos contratos, o desenho comercial passou a depender de rotas marítimas sensíveis.

Estoques baixos ampliam a exposição

Os dados da Gas Infrastructure Europe mostram armazenamento de gás em torno de 30% da capacidade, após o inverno. O nível é inferior ao registrado no mesmo período do ano passado, segundo analistas da Mind Energy.

Com o ciclo de reposição apenas começando, a margem de segurança diminui. O Rabobank projeta que, mesmo sem fechamento total da hidrovia, o TTF pode se aproximar de €50/MWh caso haja redução prolongada nos fluxos.

Mercado já precifica escassez futura

A reação nos derivativos indica expectativa de aperto prolongado na oferta global de energia. O mercado europeu de carbono caiu levemente, mas o gás liderou a volatilidade.

Além disso, a escalada eleva o risco de transmissão inflacionária via tarifas industriais e geração elétrica. O choque não se limita ao curto prazo; ele redefine o cálculo de risco energético do bloco.

No fim, o preço do gás na Europa deixou de ser apenas reflexo de clima ou estoques e passou a incorporar risco geopolítico permanente. A transição energética europeia, baseada em diversificação e contratos flexíveis de GNL, enfrenta agora um teste estrutural: depender menos da Rússia significou depender mais da estabilidade marítima global e essa variável voltou ao centro do tabuleiro energético mundial.

Foto de Flávia Lifonsino

Flávia Lifonsino

Flávia Lifonsino é jornalista formada pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção jornalística e em conteúdos analíticos sobre negócios, investimentos e tecnologia aplicada às empresas, além de experiência em coberturas digitais e projetos editoriais.

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