Os medicamentos emagrecedores atravessa uma transição estratégica que combina expiração de patentes, corrida por versões orais e reconfiguração dos canais de venda. Após projeções saltarem de US$ 100 bilhões para US$ 150 bilhões em vendas globais no início da próxima década, segundo estimativas revisadas por analistas, o setor enfrenta agora o chamado Abismo de Patentes 2.0.
Entre 2025 e 2029, a indústria farmacêutica deve perder cerca de US$ 90 bilhões em receitas com o vencimento simultâneo de patentes, conforme cálculos do mercado. Nesse contexto, terapias baseadas em GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, tornaram-se o eixo da disputa entre multinacionais.
Medicamentos emagrecedores e o risco das patentes
A patente da semaglutida expira em março de 2026 na China, Índia, Turquia, Canadá e Brasil — países que concentram 40% da população mundial e 33% das pessoas com obesidade. Esse calendário pressiona a dinamarquesa Novo Nordisk, detentora do ativo, diante da entrada prevista de genéricos e biossimilares.
Ao mesmo tempo, a Eli Lilly consolidou o Zepbound, baseado em tirzepatida, ampliando sua presença no tratamento da obesidade. O valor de mercado da farmacêutica americana superou US$ 1 trilhão, enquanto ações da concorrente sofreram oscilações após resultados abaixo do esperado com o CagriSema.
Disputa pelos comprimidos e adesão do paciente
A corrida por versões orais ganhou força após estudo publicado na PLOS One, em 2022, indicar que 63,2% dos adultos relatam medo de agulhas. A Novo Nordisk anunciou o lançamento do Wegovy em comprimido para janeiro de 2026, enquanto a Eli Lilly aguarda eventual aprovação do orforglipron pelo FDA, prevista, na melhor hipótese, para março do mesmo ano.
Segundo projeções do Goldman Sachs, o mercado global pode atingir US$ 95 bilhões em 2030, com 24% concentrados em apresentações orais. O banco estima que a Eli Lilly possa capturar 60% desse segmento, ante 21% da concorrente dinamarquesa.
Além disso, diferenças de conveniência aparecem nas bulas: o comprimido da Lilly pode ser ingerido com ou sem alimentos, enquanto a semaglutida oral exige jejum e intervalo de 30 minutos antes das refeições.
Medicamentos emagrecedores e a venda direta ao paciente
Paralelamente, cresce o modelo de venda direta ao paciente (DTP), que combina telessaúde, preço em dinheiro e entrega domiciliar. Plataformas como NovoCare Pharmacy e LillyDirect ilustram a estratégia de reduzir a intermediação de planos de saúde.
Na mais recente conferência global do setor de saúde organizada por um grande banco de investimentos, o Novo Nordisk declarou que terapias para obesidade tendem a se adaptar melhor ao canal direto ao consumidor e que a companhia pretende ampliar a participação em pagamentos fora dos planos tradicionais. Esse redesenho altera a relação com pacientes e impõe pressão sobre sistemas públicos e operadoras privadas.
No Brasil, acordos entre Lupin, Gan & Lee, Biocon e Biomm indicam uma nova frente competitiva envolvendo genéricos, cadeias produtivas locais e parcerias para desenvolvimento produtivo. Assim, os medicamentos emagrecedores deixam de ser apenas uma inovação terapêutica e passam a definir estratégias industriais, cadeias globais e modelos de acesso. A forma como essa disputa evoluirá tende a influenciar o equilíbrio do setor farmacêutico nos próximos anos. A evolução dessa disputa pode afetar o equilíbrio do setor farmacêutico nos próximos anos.





