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Carne brasileira fica mais cara no Oriente Médio em meio a crise em Hormuz

A crise no estreito de Hormuz aumentou custos e prazos logísticos, levando empresas como a MBRF a repassar preços. O resultado é carne brasileira mais cara no Oriente Médio, com impacto direto no consumo e pressão sobre cadeias globais.
Caminhões da Sadia e Perdigão estacionados, representando logística de exportação de carne brasileira
Frota de caminhões da MBRF (Sadia e Perdigão): empresa enfrenta alta de custos e atraso nas entregas ao Oriente Médio após restrições no estreito de Hormuz (Foto: Divulgação_

O preço da carne brasileira no Oriente Médio entrou sob pressão após as restrições no estreito de Hormuz elevarem custos logísticos e aumentarem o prazo de entrega de grandes exportadoras. Dona de marcas como Sadia e Perdigão, a MBRF afirmou que o tempo médio para abastecer a região passou de 40 para mais de 60 dias, e reconheceu que haverá repasse ao consumidor para compensar a operação mais cara.

A mudança importa porque atinge um mercado relevante para o agronegócio brasileiro. A MBRF exporta cerca de 70 mil toneladas por mês para o Oriente Médio, com forte presença de carne de frango, e teve de redesenhar sua operação para evitar ruptura no abastecimento. O problema deixou de ser apenas logístico: virou pressão sobre preço, prazo e capacidade de entrega.

Na prática, a guerra e as restrições de circulação na região tornaram mais caro levar proteína brasileira a países como Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait e Iraque. O frete subiu, a armazenagem ficou mais custosa, o transporte por terra ganhou peso e operadores passaram a cobrar sobretaxas ligadas ao risco da rota.

Entrega mais lenta aumenta custo e pressiona repasse

Segundo Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da MBRF, o prazo médio de entrega à região saltou mais de 50%. Esse aumento altera toda a lógica da operação porque exige mais estoque em trânsito, mais armazenagem e maior estrutura local.

A companhia também passou a enfrentar a chamada “taxa de guerra”, além de gastos extras com transporte terrestre entre portos e centros de distribuição. Quando a operação depende de desvios, transbordos e caminhões, o custo final sobe em cadeia.

Além da mudança operacional, o impacto financeiro já aparece de forma concreta nas tarifas logísticas. Segundo dados do setor, as sobretaxas cobradas por transportadoras podem chegar a US$ 4.000 por contêiner, enquanto armadores como a Maersk aplicam cobranças emergenciais entre US$ 1.800 e US$ 3.800, dependendo da rota e do tipo de carga.

Considerando que um contêiner refrigerado pode transportar cerca de 25 toneladas de carne, esse custo adicional pode representar até US$ 160 por tonelada apenas em sobretaxa logística. Na prática, isso cria uma pressão direta sobre o preço final da proteína na região.

O ponto central não é apenas o atraso. O dado mais relevante é que o encarecimento logístico já começou a ser transferido ao preço praticado na região.

Do navio ao caminhão: o que mudou na logística

A resposta das empresas ao bloqueio em Hormuz foi reorganizar rotas. No caso da MBRF, isso incluiu ampliar o transporte terrestre entre portos, contratar mais caminhões e usar caminhos alternativos pela Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos.

A empresa operava com 7 centros de distribuição, mas precisou ampliar para 12 unidades. Isso mostra que houve uma mudança estrutural na logística, com mais etapas e maior complexidade operacional.

Esse ajuste pesa porque o caminhão não substitui o navio com a mesma escala. Segundo a consultoria Solve Shipping, a carga que antes seguia por mar agora depende, em parte, de transbordo e transporte terrestre, o que reduz eficiência e eleva custos.

As sobretaxas podem chegar a US$ 4.000 por contêiner, enquanto a Maersk informou cobrança entre US$ 1.800 e US$ 3.800, dependendo da rota e do tipo de carga.

Estoque evitou impacto imediato mais grave

A MBRF conseguiu evitar uma ruptura mais forte no abastecimento porque já vinha reforçando estoques locais há cerca de dois anos. A estratégia foi adotada inicialmente por causa do risco de gripe aviária.

Com prazos de entrega acima de 60 dias, esse estoque funcionou como um colchão logístico, evitando desabastecimento imediato.

Ainda assim, essa proteção não elimina o problema central: o custo estrutural da operação aumentou, e isso tende a continuar pressionando preços.

JBS também sente impacto e reforça cenário

O impacto não se limita à MBRF. Em teleconferência realizada em 07/03, o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, afirmou que a empresa também precisou trocar portos e usar transporte terrestre para manter as entregas.

Segundo ele, agentes marítimos passaram a cobrar custos extras pelo risco da região. Até o momento citado, esse impacto vinha sendo absorvido pelo mercado, mas reforça que o encarecimento já se espalhou pelo setor.

A JBS também anunciou investimento de US$ 235 milhões para ampliar sua presença na região, incluindo uma planta na Arábia Saudita e uma operação em Omã.

O que muda na prática?

A crise em Hormuz deixou de ser um problema restrito ao transporte marítimo e passou a afetar diretamente uma cadeia global de alimentos.

Com frete mais caro, rotas mais longas e operação mais complexa, o efeito deixa de ser pontual. Ele passa a pressionar preços e reduzir a eficiência da exportação.

No caso da MBRF, esse processo já levou a empresa a admitir repasse de custos, o que sustenta a leitura de que o preço da carne brasileira no Oriente Médio está sob pressão.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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