“Spread elevado trava queda dos juros do crédito mesmo com Selic menor”, diz Pedro Brandão

Spread bancário recorde mantém o crédito caro no Brasil. Em entrevista ao Economic News Brasil, o economista Pedro Brandão afirma que a queda da Selic não chega automaticamente ao consumidor.
Pedro Brandão, economista, analisa spread bancário e crédito caro no Brasil olhando para a câmera
Pedro Brandão afirma que o spread bancário elevado impede a queda do crédito mesmo com a redução da Selic. (Foto: Edição ENB)

O spread bancário recorde ajuda a explicar por que o crédito segue caro no Brasil, especialmente nas linhas de maior risco, mesmo após duas quedas consecutivas da Selic. O economista Pedro Brandão, ex-diretor do Banco Bozano Simonsen, conversou com o Economic News Brasil sobre o descompasso entre a taxa básica e os juros cobrados de consumidores e empresas.

“O spread elevado trava uma queda mais rápida dos juros do crédito, mesmo com a Selic em redução. A taxa básica é uma referência importante, mas entre a decisão do Banco Central e o contrato assinado pelo consumidor existe uma cadeia de risco, inadimplência, custo regulatório, tributação, compulsórios e margem bancária”, afirma Pedro Brandão, que também preside o Conselho de Administração do Grupo Prime Plus.

Na última reunião do Copom, realizada em 29 de abril de 2026, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50% ao ano. Foi a segunda redução consecutiva da taxa básica.

O que é spread bancário?

O spread bancário é a diferença entre a taxa que os bancos pagam para captar dinheiro e os juros que cobram ao emprestar esses recursos. O indicador inclui risco de calote, despesas administrativas, impostos, exigências regulatórias, custo de capital, compulsórios e margem financeira.

Essa diferença é decisiva porque a Selic funciona como referência para o custo do dinheiro, mas não define sozinha a taxa final do contrato. Entre a decisão do Banco Central e o crédito oferecido ao consumidor entram variáveis de risco, garantias, inadimplência esperada e competição entre instituições.

Por que o crédito não cai junto com a Selic?

Quando o spread está elevado, a distância entre a taxa básica e os juros cobrados no contrato continua grande. Por isso, o corte da Selic pode reduzir parte do custo financeiro, mas não garante queda imediata nas modalidades mais caras.

“É incorreto olhar o spread bancário apenas como margem bancária. Mas também é insuficiente tratá-lo como uma consequência inevitável do risco. Quando o indicador chega ao maior nível da série, o debate precisa incluir eficiência do sistema, concorrência, assimetria de informação e qualidade das garantias disponíveis no crédito brasileiro”, avalia.

A análise de Brandão amplia o debate. O spread elevado reflete risco, mas também expõe problemas de competição, informação, garantias e estrutura bancária. Essa combinação ajuda a explicar por que o crédito pode seguir caro mesmo em um ciclo de queda da taxa básica.

A Selic vai cair de novo na próxima reunião do Copom?

A próxima decisão do Copom está prevista para 17 de junho. O mercado ainda considera possível novo corte de 0,25 ponto percentual, mas a sinalização do Banco Central não fechou a porta para diferentes cenários. A dúvida ganhou peso depois da nova rodada de expectativas do mercado.

O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (04/05) reforçou esse cenário de cautela. A projeção para o IPCA de 2026 subiu de 4,86% para 4,89%, na oitava alta consecutiva, enquanto a Selic esperada para o fim do ano permaneceu em 13%. O relatório reúne expectativas de mercado para inflação, Selic, câmbio, PIB e outros indicadores.

A projeção de inflação ficou acima do limite superior da meta, que é de 4,5%. Isso reduz o espaço para cortes mais intensos da Selic, porque expectativas pressionadas tornam mais difícil para o Banco Central acelerar o afrouxamento monetário sem comprometer a convergência dos preços.

“O Banco Central está cortando juros, mas não está em um ciclo confortável de afrouxamento. A inflação segue acima do centro da meta, o ambiente externo é instável e o risco fiscal ainda pesa sobre as expectativas. Por isso, o Copom deve calibrar os próximos passos com cautela”, afirma Brandão.

A leitura conecta o dado macroeconômico ao crédito. O Focus ajuda a explicar por que a Selic pode cair menos; o spread mostra por que, mesmo quando ela cai, o alívio demora a chegar ao consumidor e às empresas.

O Brasil segue entre os países com juros reais elevados em comparação internacional, embora a posição varie conforme a metodologia e o momento da medição. Levantamentos de mercado apontam o Brasil na segunda posição global, atrás apenas da Rússia no ranking recente citado pela imprensa econômica.

Economia fraca limita o alívio no crédito

A projeção de crescimento de 1,85% mostra uma economia com resposta limitada, mesmo sob forte restrição monetária. Esse cenário cria uma tensão relevante: a inflação segue elevada enquanto a atividade permanece fraca em 2026.

O câmbio ao redor de R$ 5,25 não gera alívio suficiente para conter os preços. Além disso, o Índice Geral de Preços (IGP) do Mercado subiu para 5,50%, ampliando o custo de contratos indexados e pressionando despesas operacionais.

Essa combinação reduz a margem de atuação do Banco Central. Se a inflação não cede no ritmo esperado, a autoridade monetária tende a cortar juros com mais cautela. Com a Selic caindo devagar, o crédito também tende a demorar mais para baratear.

Quanto isso pesa no bolso do consumidor?

Em um empréstimo de R$ 10 mil, uma diferença pequena na taxa mensal pode representar centenas ou milhares de reais a mais ao fim do contrato, dependendo do prazo e da modalidade escolhida.

“Quanto maior o spread, maior tende a ser a distância entre a taxa anunciada pelo Banco Central e a taxa efetiva que aparece no contrato. Para famílias endividadas, essa diferença pode determinar se a dívida será administrável ou se entrará em bola de neve”, diz Brandão.

O impacto para o consumidor aparece nas parcelas, no comprometimento da renda e na dificuldade de trocar dívidas caras por linhas mais baratas. A queda da Selic tende a aparecer primeiro nas operações de menor risco, enquanto modalidades emergenciais continuam mais sensíveis à inadimplência e ao spread elevado.

Como o spread afeta as empresas?

Nas empresas, o efeito aparece no capital de giro, na capacidade de investimento e na formação de preços. Negócios menores, com menos garantias e menor acesso ao mercado de capitais, tendem a sofrer mais porque dependem mais do crédito bancário tradicional.

“Quando o crédito empresarial encarece, a empresa posterga investimento, reduz contratação, encurta prazo com fornecedores ou tenta repassar custo. O spread alto, portanto, não é um problema restrito aos bancos e aos clientes. Ele afeta a dinâmica de crescimento da economia e pode pressionar preços ao consumidor, dependendo do setor, da margem e do nível de concorrência”, destaca Pedro Brandão.

O resultado é um ambiente em que empresas menores tendem a adiar expansão, preservar caixa e operar com menos espaço para absorver choques de custo.

O que fazer enquanto os juros bancários continuam altos?

O ranking de taxas do Banco Central permite consultar juros por instituição e modalidade, o que ajuda a identificar alternativas menos caras antes de fechar contrato.

“Em um ambiente de spread elevado, a decisão de crédito precisa ser tomada pelo custo total da dívida. O consumidor deve comparar instituições, fugir de modalidades emergenciais e buscar renegociação antes que a dívida fique mais cara”, orienta Brandão.

Até que inflação, inadimplência e custo de captação cedam de forma mais consistente, o corte da Selic deve produzir alívio desigual: primeiro nas linhas de menor risco, depois nas modalidades mais caras e sensíveis à inadimplência.

Foto de Adriana Rodrigues

Adriana Rodrigues

Adriana Rodrigues é jornalista e Coordenadora de Relacionamento e Operações do Sistema BNTI de Comunicação, com atuação na gestão de contas e no acompanhamento de KPIs dos portais Economic News Brasil e Boa Notícia Brasil. Possui mais de 25 anos de experiência profissional, com passagem por empresas como FIAT, NIASI S/A e Claro. É pós-graduada em Marketing pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e em Recursos Humanos pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Mais lidas

Últimas notícias