Os fundos da privatização da Eletrobras acumularam mais de R$ 3,7 bilhões sem execução efetiva mesmo após quase três anos de funcionamento. O dinheiro deveria financiar saneamento, revitalização de bacias hidrográficas, navegabilidade e redução de tarifas de energia em regiões estratégicas do país.
O atraso passou a pressionar a própria narrativa da desestatização da antiga Eletrobras, hoje rebatizada de Axia Energia. Enquanto a companhia registrou lucro líquido de R$ 3,7 bilhões no primeiro trimestre, a maior parte dos projetos ligados às contrapartidas sociais e ambientais ainda não saiu do papel.
O problema deixou de ser apenas operacional. A lentidão começou a atingir justamente áreas usadas politicamente para sustentar parte da privatização, principalmente no Nordeste e na Amazônia.
Fundos da privatização acumulam dinheiro enquanto obras da Eletrobras seguem sem execução
Os fundos da privatização da Eletrobras foram criados para financiar projetos de recuperação ambiental, saneamento e infraestrutura hidroviária em regiões consideradas estratégicas após a desestatização da companhia. As verbas, portanto, foram direcionadas para iniciativas ligadas:
- às bacias do São Francisco e Parnaíba;
- à Amazônia Legal;
- à região de Furnas;
- aos rios Madeira e Tocantins.
O problema é que a maior parte desse dinheiro ainda não virou obra.
Dos 247 projetos previstos, apenas 5 foram concluídos até agora. Outros 145 nem chegaram à fase de execução. O atraso acabou concentrando bilhões em caixa enquanto rios, saneamento e intervenções ambientais seguem sem avanço concreto.
A diferença ficou mais evidente em um dos principais fundos da privatização da Eletrobras. O mecanismo voltado às bacias do São Francisco e da Parnaíba já recebeu R$ 1,5 bilhão da Axia Energia, mas executou apenas R$ 54,4 milhões. Com os rendimentos acumulados, o saldo parado já alcança R$ 1,7 bilhão.
O gargalo passou a surgir justamente na transição entre aprovação política e implantação prática dos projetos. O governo federal seleciona as propostas por meio de comitês interministeriais, mas a contratação e a execução dependem da Axia.
Segundo a empresa, parte relevante das propostas ainda chega com problemas técnicos, ambientais ou jurídicos que impedem a contratação imediata. Na prática, isso desacelerou obras que haviam sido apresentadas como contrapartida direta da privatização da antiga Eletrobras.
Recursos retornam para a própria Axia Energia
Parte dos fundos da privatização da Eletrobras acabou retornando à própria Axia Energia na forma de ressarcimentos tributários e administrativos. Os pagamentos incluem despesas com PIS/Cofins, auditorias, serviços operacionais e custos internos ligados à gestão dos mecanismos.
Somados, esses reembolsos já alcançam cerca de R$ 40 milhões.
O caso mais crítico aparece no fundo de Navegabilidade. Criado para financiar melhorias nos rios Madeira e Tocantins, o mecanismo acumula R$ 446 milhões praticamente sem uso desde 2023. Nenhum edital foi lançado para selecionar obras ou intervenções hidroviárias no período.
A execução financeira dos fundos da privatização da Eletrobras ficou quase integralmente concentrada em reembolsos para a própria empresa. Dos cerca de R$ 6 milhões movimentados pelo fundo, R$ 5,9 milhões voltaram para a Axia. O restante foi direcionado a auditorias e despesas administrativas.
Na prática, nenhum valor relevante chegou a projetos de recuperação da navegabilidade.
A situação também se repetiu no fundo do São Francisco e Parnaíba. Quase um quarto de tudo que foi executado acabou absorvido por ressarcimentos administrativos e tributários da companhia. O modelo começou a ampliar questionamentos sobre eficiência operacional e velocidade de entrega das contrapartidas prometidas após a privatização da antiga Eletrobras.
Divergência em plataformas amplia pressão sobre transparência
Os sistemas de prestação de contas dos fundos da privatização da Eletrobras começaram a apresentar inconsistências entre os próprios dados divulgados pela Axia Energia. No fundo da Amazônia Legal, o site institucional da companhia informa execução de R$ 369 milhões, enquanto outra plataforma administrada pela empresa aponta apenas R$ 1,3 milhão.
A divergência ampliou dúvidas sobre rastreabilidade, atualização das bases e monitoramento dos recursos justamente num momento em que bilhões seguem sem chegar às obras previstas.
Lentidão amplia desgaste sobre os fundos da privatização da Eletrobras
A Axia afirma que os projetos dependem de licenciamento ambiental, análises técnicas e adequação jurídica antes da contratação. Segundo a empresa, muitas propostas ainda chegam em estágio inicial de estruturação e precisam de ajustes antes da execução.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional também declarou que os projetos passam por critérios técnicos, compliance e acompanhamento contínuo dos comitês gestores.
Mesmo assim, o ritmo lento começou a ampliar a pressão sobre as contrapartidas prometidas na privatização da antiga Eletrobras. O acúmulo bilionário sem execução passou a expor a dificuldade de transformar os fundos da privatização da Eletrobras em obras efetivas de saneamento, revitalização ambiental e infraestrutura hídrica.





