A SpaceX realizou o IPO na quinta-feira (11) e estreia na bolsa nesta sexta-feira (12) com uma avaliação de US$ 1,8 trilhão e uma captação potencial de US$ 75 bilhões, operação que pode superar com ampla margem o recorde histórico da Saudi Aramco e se tornar a maior abertura de capital já realizada.
O tamanho da oferta transformou a companhia de Elon Musk em um dos temas mais discutidos de Wall Street. A questão central, porém, não é o valor arrecadado. O mercado tenta entender por que investidores aceitam pagar uma avaliação comparável à das maiores empresas do planeta por uma companhia que ainda registra prejuízos bilionários.
A resposta passa menos pelos resultados atuais e mais pela expectativa de que a SpaceX possa dominar setores inteiros da economia nas próximas décadas.
IPO da SpaceX aposta em mercados que ainda estão nascendo
A avaliação de US$ 1,8 trilhão não está baseada apenas no que a companhia produz atualmente. Grande parte do valor atribuído pelos investidores reflete a expectativa de crescimento em mercados considerados gigantescos.
No documento de apresentação da proposta, a companhia prevê um mercado potencial de US$ 28,5 trilhões para seus produtos e serviço. A tese combina conectividade global, inteligência artificial, infraestrutura orbital e exploração espacial em uma única plataforma empresarial.
A aposta é que a SpaceX consiga ocupar uma posição dominante em áreas que ainda estão em estágio inicial, repetindo em escala global o que empresas como Amazon, Google e Nvidia fizeram em seus respectivos mercados.
Por que investidores aceitam pagar US$ 1,8 trilhão pela SpaceX
A confiança do mercado está apoiada em ativos que já operam e em projetos que podem abrir novas fontes de receita.
Entre os principais fatores citados pelos investidores estão:
- Starlink, com cerca de 8 mil satélites e presença crescente em vários países
- Liderança global no mercado de lançamentos espaciais
- Integração com a xAI, empresa de inteligência artificial criada por Elon Musk
- Projetos de data centers espaciais alimentados por energia solar
- Possibilidade de expansão para serviços orbitais ainda inexistentes comercialmente
Outro elemento pesa na avaliação. Muitos investidores enxergam na SpaceX uma combinação de negócios que normalmente estariam distribuídos entre diversas empresas diferentes, reunindo telecomunicações, infraestrutura digital, inteligência artificial e exploração espacial.
Os números atuais contam uma história bem diferente
Embora as projeções sejam ambiciosas, os resultados financeiros mostram uma empresa distante da rentabilidade atribuída pelas expectativas do mercado.
No último ano, a SpaceX registrou receita de US$ 18,7 bilhões, mas encerrou o período com prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões.
A companhia também acumulava aproximadamente US$ 29 bilhões em dívida no fim de março. Além disso, informou aos investidores que não espera atingir lucratividade no curto prazo.
A consequência é uma avaliação equivalente a cerca de 94 vezes a receita anual, patamar muito acima dos múltiplos observados em gigantes consolidadas da tecnologia.
A diferença entre Wall Street e os analistas independentes
O contraste mais forte apareceu nos cálculos da Morningstar. Após analisar os fundamentos financeiros da empresa, a consultoria estimou o valor da SpaceX em aproximadamente US$ 780 bilhões.
O número representa menos da metade da avaliação proposta na oferta pública.
Para os analistas, a diferença decorre principalmente da dificuldade de estimar quanto os projetos ligados à inteligência artificial orbital, aos centros de processamento espaciais e à expansão da Starlink poderão gerar de receita no futuro.
Nesse caso, o preço das ações depende menos dos resultados atuais e mais da capacidade de transformar projetos experimentais em negócios altamente lucrativos.
SpaceX vale quase tanto quanto gigantes históricas da bolsa
A dimensão da avaliação ajuda a entender o debate em torno da oferta.
Se mantiver o valor proposto, a companhia passará a figurar entre as maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos, superando centenas de grupos tradicionais construídos ao longo de décadas.
O valor também supera amplamente o arrecadado pelos maiores IPOs da história e coloca a SpaceX em um grupo normalmente reservado a empresas com lucros bilionários recorrentes.
A diferença é que a companhia de Elon Musk ainda está sendo avaliada principalmente pelo que pode se tornar, e não pelo que efetivamente entrega hoje.
O risco que acompanha a aposta de US$ 1,8 trilhão
Além das dúvidas sobre valuation, especialistas observam riscos relacionados à governança corporativa.
Mesmo após com o IPO, Elon Musk continuará controlando aproximadamente 82% do poder de voto da SpaceX, mantendo influência praticamente absoluta sobre as decisões estratégicas da companhia.
Os acionistas minoritários terão pouca capacidade de alterar rumos da gestão ou contestar decisões relevantes.
Essa estrutura aumenta a dependência da visão e da execução de um único executivo. Se os projetos ligados à inteligência artificial espacial, à expansão da Starlink ou às futuras missões comerciais não entregarem os resultados esperados, a avaliação poderá enfrentar questionamentos cada vez maiores.
No fim das contas, o IPO da SpaceX não representa apenas a abertura de capital de uma empresa espacial. O mercado está precificando uma visão de futuro que envolve internet global, inteligência artificial e infraestrutura orbital. O tamanho dessa aposta explica os US$ 1,8 trilhão atribuídos à companhia. O desafio será provar que esse valor pode ser sustentado pelos resultados.





