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Como a estrutura que levou a Copa do Mundo à CazéTV virou tema de debate na FIFA

A estrutura que ajudou a levar a Copa do Mundo para a CazéTV passou a despertar questionamentos dentro da FIFA. O debate envolve governança, direitos esportivos e a atuação da LiveMode.
Casimiro Miguel posa em frente ao logotipo da CazéTV, plataforma que ganhou destaque nas transmissões esportivas e da Copa do Mundo.
CazéTV se consolidou como protagonista da mídia esportiva digital após a aquisição de direitos de transmissão da Copa do Mundo. (Foto: Reprodução)

A Copa do Mundo de 2026 na CazéTV ajudou a transformar a plataforma de Casimiro Miguel em um dos maiores fenômenos recentes da mídia esportiva brasileira. Agora, a estrutura empresarial que permitiu essa expansão passou a ser discutida nos bastidores da FIFA.

Segundo relatos de pessoas envolvidas em conversas realizadas durante o Mundial disputado nos Estados Unidos, a entidade passou a questionar a relação entre a LiveMode, empresa responsável pela operação da CazéTV e pela negociação de direitos esportivos, e a Futebol Forte União (FFU), grupo que reúne 32 clubes do futebol brasileiro para comercializar contratos de mídia de forma conjunta.

A avaliação discutida nos bastidores é que a proximidade entre esses agentes pode levantar dúvidas sobre potenciais conflitos de interesse na negociação de direitos esportivos. O debate ganhou peso porque a LiveMode se tornou uma das principais intermediárias do mercado brasileiro e participou de acordos que movimentam bilhões de reais nos últimos anos.

A discussão não envolve audiência ou desempenho das transmissões. O foco está no modelo de negócios que conecta negociação, comercialização e exibição de direitos esportivos dentro do mesmo ecossistema empresarial.

Por que a FIFA passou a olhar para a estrutura ligada à CazéTV na Copa do Mundo

A preocupação relatada nos bastidores está ligada à posição ocupada pela LiveMode no mercado de direitos esportivos.

Na avaliação discutida dentro da FIFA, a presença de agentes ligados ao mesmo ecossistema empresarial em diferentes etapas da cadeia de negociação pode gerar questionamentos sobre independência comercial.

O ponto central não está nas transmissões da Copa do Mundo na CazéTV, mas na estrutura que reúne interesses relacionados em atividades que vão da negociação dos direitos à sua exploração comercial.

Não há acusação formal nem anúncio de qualquer medida por parte da entidade. O que existe é uma discussão sobre governança e sobre os limites considerados adequados para empresas que acumulam funções relevantes dentro do mesmo mercado.

Como a Copa do Mundo ajudou a impulsionar a CazéTV

O crescimento da plataforma está diretamente ligado às mudanças ocorridas nos contratos da Copa do Mundo.

Durante décadas, a Globo concentrou praticamente sozinha os direitos do principal torneio do futebol mundial no Brasil. Esse cenário começou a mudar durante a pandemia, quando a emissora entrou em disputa com a FIFA para renegociar o contrato firmado anos antes.

O acordo que encerrou o impasse eliminou a exclusividade digital da Globo e abriu uma oportunidade rara no mercado esportivo brasileiro. A LiveMode aproveitou essa brecha para adquirir os direitos digitais da Copa do Mundo do Catar em 2022 e transformou a CazéTV em uma alternativa real às transmissões tradicionais.

O resultado foi além da audiência alcançada durante o torneio. A Copa funcionou como uma vitrine capaz de acelerar o crescimento da plataforma. Consolidando, inclusive, sua posição em um mercado dominado por grandes grupos de comunicação graças também a parcerias como a com o jogador Cristiano Ronaldo.

O sucesso também ampliou o espaço da empresa nas negociações seguintes. Para a Copa de 2026, a LiveMode não apenas voltou ao torneio como expandiu sua participação no negócio. Além de atuar na comercialização dos direitos, garantiu a transmissão das 104 partidas no Brasil. Tornando, assim, a CazéTV a única plataforma nacional com acesso a todos os jogos da competição.

A conexão entre LiveMode, FFU e investidores

Parte da atenção da FIFA está voltada para a estrutura criada ao redor dos direitos comerciais do futebol brasileiro.

Em 2023, um consórcio liderado pela XP Investimentos e pela General Atlantic investiu R$ 2,6 bilhões para adquirir 20% dos direitos comerciais da então Liga Forte União, atualmente chamada FFU, por um período de 50 anos.

Meses depois, os mesmos investidores anunciaram participação na LiveMode, empresa que se tornou uma das protagonistas do mercado de mídia esportiva e ajudou a viabilizar a transmissão da Copa do Mundo na CazéTV.

A existência dessa conexão não representa, por si só, qualquer irregularidade. O ponto debatido nos bastidores é a presença de interesses relacionados em negócios que atuam em diferentes momentos da cadeia de negociação dos direitos esportivos.

A influência da LiveMode também cresceu por seu papel na comercialização dos contratos de mídia da FFU. Segundo números divulgados pela própria empresa, os acordos elevaram a receita anual dos clubes de aproximadamente R$ 800 milhões para R$ 1,7 bilhão por temporada.

O que está em jogo além das transmissões da Copa

A discussão vai muito além da presença da CazéTV em futuras edições do torneio.

O debate envolve o modelo de governança que poderá orientar um mercado cada vez mais concentrado e estratégico para clubes, ligas, plataformas digitais e grupos de mídia.

O tema também surge em meio às tentativas da CBF de aproximar os grupos hoje representados por FFU e Libra em torno de uma futura liga nacional unificada.

Por isso, a questão não se resume às transmissões da Copa. O que está em debate é a forma como direitos esportivos bilionários serão negociados, distribuídos e explorados comercialmente nos próximos anos, tanto no futebol brasileiro quanto em competições internacionais.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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