Crise nos planos de saúde ganhou novo contorno na última segunda-feira (12/01), quando dados oficiais mostraram que 47% das ações judiciais da área da saúde no Brasil já envolvem operadoras privadas. O número confirma uma inversão relevante no contencioso do setor, que passou a concentrar disputas entre consumidores e empresas, superando em vários estados os processos contra o Sistema Único de Saúde (SUS).
Nos dez primeiros meses de 2025, os tribunais receberam 283.531 novos processos contra planos, volume 7% maior que no mesmo período do ano anterior. Quando somadas as ações contra o SUS, o total chega a 593.007 casos. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, as operadoras já lideram o ranking de judicialização, um retrato da insatisfação de quem paga por previsibilidade e acesso mais rápido a tratamentos.
Crise nos planos de saúde e o avanço das disputas
Especialistas avaliam que a crise nos planos de saúde não está ligada a uma melhora do sistema público, mas à frustração crescente dos beneficiários. Segundo advogados do setor, negativas de cobertura, demora em autorizações e restrições de rede empurram o consumidor para pedidos liminares, sobretudo em situações de urgência médica.
Além disso, a utilização do rol de procedimentos como argumento para recusa segue no centro dos conflitos. A defasagem regulatória amplia o contencioso. A evolução da medicina ocorre em ritmo mais rápido que a atualização das normas, o que desloca decisões administrativas para o Judiciário.
Crise nos planos de saúde em meio a lucros elevados
O avanço das ações ocorre enquanto o setor registra seu melhor desempenho financeiro em anos. Entre janeiro e setembro de 2025, as operadoras alcançaram lucro operacional de R$ 9,3 bilhões, alta próxima de 140% na comparação anual. O resultado acompanha a expansão da base de clientes, que atingiu 53,3 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares.
Esse contraste alimenta a percepção de desequilíbrio. A judicialização compromete a saúde financeira das empresas perde força diante dos números. Reajustes considerados abusivos e barreiras à portabilidade reforçam a sensação de assimetria na relação contratual.
Conflitos estruturais na saúde suplementar
A crise nos planos de saúde revela uma mudança estrutural. O Judiciário passou a atuar como instância regular de execução dos contratos, diante da baixa efetividade dos canais administrativos. A instabilidade regulatória, somada a entendimentos divergentes sobre cobertura, amplia a insegurança jurídica.
As operadoras, por sua vez, negam estratégia deliberada de recusa e defendem o fortalecimento de instrumentos como SAC, ouvidorias e a Notificação de Intermediação Preliminar. Ainda assim, as despesas judiciais acumuladas desde 2019 já somam R$ 18 bilhões, recursos que, segundo o setor, poderiam ser direcionados ao atendimento.
No horizonte, a crise nos planos de saúde tende a permanecer enquanto persistir o descompasso entre crescimento do mercado, fiscalização limitada e confiança fragilizada, mantendo a Justiça como rota central para garantir acesso ao cuidado.











