O déficit nas contas externas do Brasil alcançou US$ 68,8 bilhões em 2025, segundo dados divulgados pelo Banco Central na segunda-feira (26/01), equivalente a 3,02% do Produto Interno Bruto (PIB). O resultado marca o pior saldo nominal para um ano fechado desde 2014 e reforça mudanças relevantes na dinâmica do setor externo brasileiro.
Embora o valor absoluto tenha superado o registrado em 2024, quando o rombo foi de US$ 66,2 bilhões, a proporção em relação ao PIB permaneceu praticamente estável. Ainda assim, o patamar reacende debates sobre a capacidade da economia de gerar divisas em um cenário de crescimento mais dependente de importações e remessas de renda.
Déficit nas contas externas e a composição do resultado
O resultado das transações correntes reflete o desempenho combinado da balança comercial, da conta de serviços e das rendas primária e secundária. Em 2025, o principal fator de pressão veio da queda de US$ 5,9 bilhões no superávit comercial, reduzindo a contribuição líquida do comércio exterior.
Por outro lado, houve compensações parciais. O déficit da conta de serviços recuou US$ 2,2 bilhões, enquanto a renda secundária registrou aumento de US$ 1 bilhão no superávit. Já a renda primária, que inclui lucros e dividendos remetidos ao exterior, manteve nível semelhante ao observado no ano anterior.
Financiamento externo e fluxo de capital produtivo
Apesar do avanço do déficit nas contas externas, o balanço de pagamentos permaneceu sustentado pelo ingresso de investimento direto no país. Em 2025, esses aportes somaram US$ 77,7 bilhões, o equivalente a 3,41% do PIB, superando o saldo negativo das transações correntes.
O volume representa crescimento de 4,8% em relação a 2024 e indica que o financiamento do déficit ocorreu majoritariamente por capital de longo prazo, ligado a projetos produtivos, e não por fluxos financeiros mais voláteis. Esse fator reduz riscos imediatos para o câmbio e para o financiamento externo.
Como o déficit nas contas externas afeta o dia a dia?
Um déficit externo maior indica que o país gasta mais dólares do que gera, aumentando a dependência de recursos vindos de fora. Esse desequilíbrio tende a deixar o câmbio mais sensível a mudanças no cenário internacional.
Com o dólar mais pressionado, combustíveis, produtos importados e insumos industriais ficam mais caros, o que pode atingir preços e custos na economia. Por isso, déficits elevados reduzem a margem de segurança do crescimento ao longo do tempo.
Leitura histórica do déficit nas contas externas
Na comparação histórica, o resultado de 2025 fica distante do observado em 2014, quando o déficit atingiu US$ 110,5 bilhões, ou 4,5% do PIB. Ainda assim, o retorno a níveis elevados em termos nominais chama atenção para a mudança estrutural da conta externa ao longo da última década.
O Banco Central projetava, em dezembro, um déficit maior para 2025, de US$ 76 bilhões, além de ingresso de investimento direto de US$ 75 bilhões. O desempenho efetivo ficou abaixo da estimativa negativa e com financiamento mais confortável, mas sinaliza limites claros do atual padrão de crescimento externo.
O comportamento recente do déficit nas contas externas sugere que o equilíbrio do setor externo dependerá cada vez mais da capacidade de recompor o superávit comercial e sustentar fluxos consistentes de investimento produtivo em um ambiente global mais restritivo.











