As projeções do boletim Focus, divulgadas nesta segunda-feira (26/01) pelo Banco Central, indicam que o mercado financeiro mantém a leitura de inflação relativamente comportada no curto prazo, mas passou a reforçar a percepção de juros elevados por mais tempo. O novo relatório mostra ajustes pontuais, porém consistentes, que ajudam a entender como as expectativas vêm sendo recalibradas neste início de ano.
Embora as mudanças numéricas sejam discretas em vários indicadores, a leitura conjunta revela uma inflexão qualitativa. O foco das preocupações, portanto, deixou de estar concentrado na inflação corrente e passou a orbitar a combinação entre política monetária restritiva e deterioração fiscal no médio prazo.
Projeções do boletim Focus para inflação e atividade
O relatório divulgado hoje manteve a inflação como variável relativamente ancorada no horizonte relevante. A revisão marginal do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 2026 reforça a percepção de desaceleração gradual dos preços, sem, contudo, alterar o pano de fundo macroeconômico.
Nesse contexto, as principais estimativas ficaram assim definidas:
- IPCA 2026: 4,00%
- IPCA 2027: 3,80%
- Produto Interno Bruto (PIB) em 2026: 1,8%
- PIB 2028 e 2029: 2,0%
A estabilidade do crescimento projetado indica que o mercado não identifica vetores claros de aceleração econômica. Esse fator limita o espaço para melhora espontânea das contas públicas e reduz a margem para uma flexibilização mais rápida da política monetária.
Política monetária ganha peso nas projeções do boletim Focus
A principal leitura extraída das projeções do boletim Focus está na curva de juros. Mesmo com a Selic mantida para 2026, o mercado passou a precificar um custo do dinheiro mais elevado no horizonte seguinte.
A curva de juros implícita nas expectativas aponta para o seguinte desenho:
- Selic em 2026: projetada em 12,25%
- Selic em 2027: estimada para ficar em 10,50%
- Selic em 2028: cai para 10,00%
- Selic em 2029: chegará a 9,50%
O ajuste na Selic de médio prazo ocorre apesar da inflação estável, o que sugere que os juros deixaram de responder apenas à dinâmica de preços. A política monetária passa a refletir um prêmio adicional associado a riscos estruturais, especialmente fiscais.
Fiscal e contas públicas entram no radar das expectativas
Outro eixo relevante nas projeções feitas pelo boletim Focus está na deterioração gradual das estimativas fiscais. O mercado passou a trabalhar com déficits mais persistentes e uma trajetória de endividamento menos favorável ao longo do tempo.
- Resultado primário 2027: -0,40% do PIB
- Resultado primário 2029: -0,03% do PIB
- Dívida líquida 2029: 78,82% do PIB
A ausência de revisões positivas para o crescimento torna essa leitura ainda mais sensível. Sem expansão mais robusta da atividade, o ajuste das contas públicas tende a depender de decisões fiscais diretas. O que, portanto, aumenta a cautela embutida nas expectativas.
Setor externo ajuda, mas não altera o quadro central
O setor externo aparece como um fator de alívio parcial nas projeções do boletim Focus, especialmente pela melhora nas estimativas da balança comercial no horizonte mais longo. O câmbio, por sua vez, permanece relativamente estável no curto prazo, com ajustes graduais adiante.
Esse suporte externo, no entanto, não tem sido suficiente para compensar o risco doméstico. No conjunto, o relatório Focus divulgado hoje mostra um mercado menos preocupado com a inflação imediata e mais atento à sustentação macroeconômica no médio prazo. A manutenção de juros elevados passa a refletir uma escolha defensiva diante de incertezas fiscais persistentes, moldando o ambiente econômico dos próximos anos.











