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Projeções do boletim Focus reforçam juros elevados mesmo com inflação sob controle

As projeções do boletim Focus divulgado hoje indicam inflação estável, mas juros elevados por mais tempo, refletindo cautela fiscal e leitura conservadora do mercado. Continue lendo e saiba mais.
projeções do boletim Focus indicam juros elevados no médio prazo
Expectativas do mercado no Focus divulgado em 26/01 pelo Banco Central do Brasil (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

As projeções do boletim Focus, divulgadas nesta segunda-feira (26/01) pelo Banco Central, indicam que o mercado financeiro mantém a leitura de inflação relativamente comportada no curto prazo, mas passou a reforçar a percepção de juros elevados por mais tempo. O novo relatório mostra ajustes pontuais, porém consistentes, que ajudam a entender como as expectativas vêm sendo recalibradas neste início de ano.

Embora as mudanças numéricas sejam discretas em vários indicadores, a leitura conjunta revela uma inflexão qualitativa. O foco das preocupações, portanto, deixou de estar concentrado na inflação corrente e passou a orbitar a combinação entre política monetária restritiva e deterioração fiscal no médio prazo.

Projeções do boletim Focus para inflação e atividade

O relatório divulgado hoje manteve a inflação como variável relativamente ancorada no horizonte relevante. A revisão marginal do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 2026 reforça a percepção de desaceleração gradual dos preços, sem, contudo, alterar o pano de fundo macroeconômico.

Nesse contexto, as principais estimativas ficaram assim definidas:

A estabilidade do crescimento projetado indica que o mercado não identifica vetores claros de aceleração econômica. Esse fator limita o espaço para melhora espontânea das contas públicas e reduz a margem para uma flexibilização mais rápida da política monetária.

Política monetária ganha peso nas projeções do boletim Focus

A principal leitura extraída das projeções do boletim Focus está na curva de juros. Mesmo com a Selic mantida para 2026, o mercado passou a precificar um custo do dinheiro mais elevado no horizonte seguinte.

A curva de juros implícita nas expectativas aponta para o seguinte desenho:

  • Selic em 2026: projetada em 12,25%
  • Selic em 2027: estimada para ficar em 10,50%
  • Selic em 2028: cai para 10,00%
  • Selic em 2029: chegará a 9,50%

O ajuste na Selic de médio prazo ocorre apesar da inflação estável, o que sugere que os juros deixaram de responder apenas à dinâmica de preços. A política monetária passa a refletir um prêmio adicional associado a riscos estruturais, especialmente fiscais.

Fiscal e contas públicas entram no radar das expectativas

Outro eixo relevante nas projeções feitas pelo boletim Focus está na deterioração gradual das estimativas fiscais. O mercado passou a trabalhar com déficits mais persistentes e uma trajetória de endividamento menos favorável ao longo do tempo.

  • Resultado primário 2027: -0,40% do PIB
  • Resultado primário 2029: -0,03% do PIB
  • Dívida líquida 2029: 78,82% do PIB

A ausência de revisões positivas para o crescimento torna essa leitura ainda mais sensível. Sem expansão mais robusta da atividade, o ajuste das contas públicas tende a depender de decisões fiscais diretas. O que, portanto, aumenta a cautela embutida nas expectativas.

Setor externo ajuda, mas não altera o quadro central

O setor externo aparece como um fator de alívio parcial nas projeções do boletim Focus, especialmente pela melhora nas estimativas da balança comercial no horizonte mais longo. O câmbio, por sua vez, permanece relativamente estável no curto prazo, com ajustes graduais adiante.

Esse suporte externo, no entanto, não tem sido suficiente para compensar o risco doméstico. No conjunto, o relatório Focus divulgado hoje mostra um mercado menos preocupado com a inflação imediata e mais atento à sustentação macroeconômica no médio prazo. A manutenção de juros elevados passa a refletir uma escolha defensiva diante de incertezas fiscais persistentes, moldando o ambiente econômico dos próximos anos.

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