O varejo de moda deve movimentar R$ 63,34 bilhões no Brasil, segundo projeções do IEMI (Inteligência de Mercado), mas o crescimento esperado expõe um cenário mais complexo: o avanço é puxado principalmente pelo aumento de valor, enquanto o consumo em volume segue praticamente estagnado.
Na prática, isso significa que o setor vende mais em reais, mas não necessariamente em quantidade. A estimativa aponta para a comercialização de 1,85 bilhão de peças, uma alta de apenas 0,65% em relação ao mesmo período de 2025, um ritmo considerado moderado para uma das principais temporadas do calendário da moda.
Esse descolamento entre faturamento e volume indica que o crescimento pode estar ligado a preços mais altos, mudanças no mix de produtos ou maior peso de itens com ticket médio elevado, como casacos, malharia e peças de sobreposição.
O impacto chega diretamente ao consumidor, que tende a enfrentar roupas mais caras mesmo sem aumento na oferta ou na demanda.
Crescimento em valor esconde recuperação incompleta
A leitura dos dados mostra que o setor ainda não retomou plenamente o ritmo de consumo. Segundo economistas da IEMI, o mercado busca um equilíbrio entre vender mais e evitar excessos de estoque.
Isso acontece porque o varejo ainda opera sob pressão de custos elevados ao longo da cadeia produtiva da moda, o que limita a capacidade de expansão em volume. Ao mesmo tempo, as empresas tentam preservar margens em um ambiente de forte concorrência.
O resultado é um crescimento mais “qualitativo” do que quantitativo, sustentado por ajustes de preço e estratégia comercial, e não por uma demanda aquecida. Para o consumidor, isso sinaliza um cenário de consumo seletivo, em que a decisão de compra depende mais do orçamento disponível do que de impulso.
Pressão de custos e concorrência travam expansão
Além do comportamento do consumidor, o setor enfrenta desafios estruturais que ajudam a explicar o avanço limitado no volume.
Entre os principais fatores estão os custos elevados de produção e logística, que reduzem a margem das empresas e dificultam a expansão agressiva das vendas. Ao mesmo tempo, a concorrência com plataformas internacionais de comércio eletrônico aumenta a pressão sobre preços e competitividade.
Esse ambiente leva as lojas de varejo a adotarem estratégias mais conservadoras em relação a moda, evitando riscos de excesso de estoque e priorizando eficiência operacional. Na prática, isso limita o crescimento em quantidade e reforça a dependência de estratégias de preço para sustentar o faturamento.
Ticket médio mais alto sustenta o faturamento
A própria dinâmica da temporada de inverno ajuda a explicar por que o setor consegue crescer em valor mesmo com avanço tímido em volume.
Peças típicas do período, como casacos e itens de sobreposição, têm preços mais elevados e elevam o ticket médio das compras. Isso faz com que pequenas variações na quantidade vendida gerem impactos maiores no faturamento total.
Esse efeito é determinante para o resultado projetado para 2026 e ajuda a sustentar a expectativa de crescimento mesmo em um cenário de consumo ainda contido.
Clima e início da estação serão decisivos
Apesar da projeção positiva, o desempenho real do varejo de moda ainda depende de fatores externos, principalmente o clima e o ritmo de consumo nos primeiros meses da estação.
Variações de temperatura podem afetar diretamente a demanda por peças mais pesadas, enquanto um início de temporada mais fraco pode comprometer o resultado final.
Diante disso, o setor de moda segue em recuperação gradual, com crescimento sustentado mais por estratégia e preço do que por expansão consistente da demanda.





