Pepsi vs Coca-Cola: rivalidade centenária expõe pressão de margem e força reestruturação

Pepsi vs Coca-Cola mostra por que a Pepsi tem menor margem, perde eficiência e precisa cortar custos e rever o modelo para competir com a Coca-Cola.
Garrafas de Pepsi e Coca-Cola lado a lado em prateleira, com destaque para versão sem açúcar
Disputa entre Pepsi e Coca-Cola hoje se reflete em margem, modelo de negócio e adaptação ao novo consumo (Foto: Reprodução)

A disputa Pepsi vs Coca-Cola já é algo que atravessa mais de um século, mas o que antes era uma disputa de marketing e de preferência de marca agora se concentra muito mais no lucro. Mais do que gosto popular, a diferença entre as duas empresas passou a ser definida por eficiência, capacidade de gerar margem e adaptação ao novo consumo.

Os números mais recentes deixam isso claro. Mesmo com alta de 24% no lucro operacional no primeiro trimestre de 2026, a Pepsi entrou em reestruturação para corrigir um problema central: gera menos margem que a Coca-Cola, que opera com modelo mais leve e previsível e maior capacidade de converter receita em lucro.

Pepsi vs Coca-Cola: Rivalidade centenária virou disputa de modelo econômico

A disputa Pepsi vs Coca-Cola atravessa mais de um século. A Coca-Cola foi criada em 1886 e a Pepsi em 1898, dando origem à chamada “guerra das colas”, marcada por campanhas agressivas, testes de sabor e competição direta por participação de mercado nos Estados Unidos.

Com o tempo, essa rivalidade se expandiu globalmente. Hoje, as duas empresas dominam cerca de 70% do mercado mundial de refrigerantes, com presença em praticamente todos os continentes. A Coca-Cola lidera na maior parte do mundo, enquanto a Pepsi mantém força em mercados específicos, como Índia, Canadá e partes do Oriente Médio.

Essa escala transformou a disputa. O que antes era uma briga por preferência de marca evoluiu para uma competição entre modelos de negócio, eficiência operacional e capacidade de adaptação ao novo perfil de consumo.

Estrutura do negócio explica por que a Pepsi fica atrás em lucro

A diferença entre Pepsi e Coca-Cola começa na estrutura do negócio.

A Pepsi construiu um modelo mais diversificado, no qual mais da metade da receita vem de alimentos embalados, como snacks. Apesar de amplo, esse desenho amplia a exposição a custos industriais, logística e matérias-primas, além de exigir mais capital para sustentar produção e distribuição.

Além disso, a de complexidade aumenta a pressão sobre a margem, especialmente em ciclos de inflação e desaceleração do consumo. A Coca-Cola seguiu outra direção. Ao terceirizar o engarrafamento ao longo dos últimos anos, reduziu a necessidade de capital, estabilizou o fluxo de caixa e passou a operar com uma estrutura mais leve e previsível.

Esse modelo permite absorver melhor choques de custo e manter rentabilidade mais estável. No fim, a diferença se traduz em eficiência: enquanto a Coca-Cola consegue converter uma parcela maior da receita em lucro, a Pepsi precisa operar com mais custo e maior sensibilidade às mudanças no consumo.

Estratégia de preços reduziu volume e pressionou margem

A política de preços ampliou o problema estrutural.

Durante a inflação pós-pandemia, a Pepsi elevou preços acima dos de concorrentes em alimentos e bebidas. A estratégia aumentou receita no curto prazo, mas começou a perder eficiência quando o consumidor passou a reagir.

O impacto aparece no comportamento de compra e gera efeitos como:

  • migração para marcas mais baratas
  • avanço de produtos próprios de varejistas
  • redução de volume

Esse movimento altera o equilíbrio financeiro. Sem crescimento de volume, o aumento de preço deixa de sustentar margem e passa a limitar o resultado.

Mudança no consumo pressiona a base de receita da Pepsi

A pressão sobre margem também vem da mudança no comportamento do consumidor, que passa a priorizar produtos com menos açúcar e maior percepção de saúde. O movimento, inclusive, atinge diretamente snacks industrializados e refrigerantes tradicionais, pilares da Pepsi.

Nesse cenário, a Coca-Cola parte de uma posição mais favorável. A empresa lidera com folga o segmento sem açúcar, com consumo cerca de 2,5 vezes maior que o da versão equivalente da Pepsi, conseguindo reter parte da demanda dentro da própria categoria.

O efeito é direto: enquanto a Coca-Cola se adapta melhor à mudança de consumo, inclusive mudando sua fórmula no processo, a Pepsi enfrenta maior risco de perda de volume, o que limita a recuperação de margem.

Pressão de investidor força reestruturação

A mudança na estratégia da Pepsi não foi espontânea. Veio da pressão do mercado.

A Elliott Management, com cerca de US$ 4 bilhões investidos na PepsiCo, exigiu ajustes para melhorar eficiência e rentabilidade. O foco passou a ser simplificar o negócio e recuperar margem.

A resposta da Pepsi inclui:

  • corte de cerca de 20% das marcas de snacks
  • fechamento de fábricas
  • redução de preços para recuperar volume
  • possível venda de ativos com baixo desempenho

A empresa também avalia mudanças no modelo de engarrafamento, ainda que de forma gradual. Algo que, portanto, mostra uma tentativa de aproximar o modelo ao da Coca-Cola, que opta por embalagens menores para driblar inflação e manter preços.

Mercado já precifica a diferença de margem

A divergência entre as empresas aparece no valor de mercado, que reflete a expectativa de geração de lucro futuro.

Desde o início de 2023, a Coca-Cola valorizou cerca de 23%, enquanto a Pepsi perdeu aproximadamente 15%, indicando maior confiança do mercado na capacidade da primeira de sustentar margens e gerar caixa com previsibilidade.

Já a queda da Pepsi sinaliza pressão sobre custos, menor visibilidade de lucro e dependência de ajustes internos, não de crescimento consistente de demanda.

Com reestruturação, Pepsi tenta recuperar margem mas desafio é estrutural

Os primeiros sinais de recuperação aparecem no resultado trimestral, mas não resolvem o ponto central.

Parte da estratégia passa por reposicionar o portfólio. Em maio de 2025, a Pepsi adquiriu a Poppi por cerca de US$ 2 bilhões, uma marca de refrigerantes probióticos que cresceu ao surfar a demanda por bebidas com apelo funcional e menor percepção de risco à saúde.

A operação indica uma tentativa de capturar novas categorias de consumo e reduzir a dependência de produtos tradicionais, pressionados por mudanças no comportamento do consumidor.

Ainda assim, o impacto é limitado frente ao tamanho da empresa. O desafio permanece estrutural. A Pepsi precisa reduzir complexidade, recuperar volume e adaptar seu portfólio a um consumidor mais sensível a preço e saúde.

Se esse ajuste não se traduzir em ganho consistente de margem e crescimento de demanda, a disputa Pepsi vs Coca-Cola tende a continuar favorecendo a própria Coca-Cola. E isso não por marca, mas por eficiência econômica.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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