A dívida bruta do governo voltou a subir em abril e reforçou um problema que continua no centro do debate fiscal brasileiro: o custo dos juros segue crescendo mais rápido do que a capacidade do setor público de estabilizar o endividamento. Mesmo com melhora das contas no mês, a trajetória da dívida permaneceu sob pressão.
Dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira (29/05) mostram que o setor público registrou superávit primário de R$ 24,6 bilhões em abril. Ainda assim, a dívida alcançou 80,4% do Produto Interno Bruto (PIB) enquanto os juros acumulados em 12 meses ultrapassaram R$ 1 trilhão, limitando o efeito do ajuste fiscal sobre as contas públicas.
Por que a dívida bruta do governo continuou subindo
Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) atingiu R$ 10,4 trilhões em abril, com aumento de 0,3 ponto percentual do PIB em relação a março.
A principal explicação foi a incorporação dos juros nominais da dívida.
Somente em abril, os juros do setor público somaram:
- R$ 84,8 bilhões;
- alta em relação aos R$ 69,7 bilhões de abril de 2025;
- impacto equivalente a 0,9 ponto percentual do PIB sobre a dívida bruta.
Na prática, o governo conseguiu registrar superávit antes do pagamento dos juros. Depois dessa conta, porém, o resultado voltou a ficar negativo.
O fenômeno ajuda a explicar por que a dívida bruta do governo segue crescendo mesmo em meses de melhora fiscal.
Juros acima de R$ 1 trilhão ampliam desafio das contas públicas
O principal fator por trás da alta da dívida bruta do governo continua sendo o custo financeiro do próprio endividamento. Nos 12 meses encerrados em abril, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,095 trilhão, equivalente a 8,43% do PIB.
O contraste ajuda a explicar a dificuldade de estabilizar as contas públicas. Enquanto o déficit primário acumulado em 12 meses ficou em R$ 126,6 bilhões, o gasto com juros foi muito superior.
A diferença aparece no resultado nominal, que inclui ambas as contas. Em abril, o déficit foi de R$ 60,1 bilhões. Em 12 meses, alcançou R$ 1,222 trilhão, ou 9,41% do PIB. Isso mostra que a pressão sobre a dívida vai além do resultado fiscal do mês e permanece concentrada no peso dos juros.
Câmbio e inflação também influenciam a trajetória da dívida
A evolução da dívida bruta pública não depende apenas da arrecadação ou do controle dos gastos do governo. Movimentos do câmbio, da inflação e dos próprios juros também alteram o tamanho do endividamento, mesmo quando o resultado fiscal apresenta melhora.
Em abril, a Dívida Líquida do Setor Público subiu para 67,4% do PIB, equivalente a R$ 8,8 trilhões. Segundo o Banco Central, a valorização de 4,4% do câmbio no mês e a incorporação dos juros foram alguns dos fatores que contribuíram para o avanço do indicador.
O dado reforça que uma melhora pontual nas contas públicas não necessariamente reduz a dívida no curto prazo, já que fatores financeiros continuam exercendo forte influência sobre sua trajetória.
O que o avanço da dívida bruta do governo sinaliza para a economia
A alta da dívida bruta do governo mantém a atenção de investidores, economistas e agentes do mercado porque influencia diretamente a percepção de risco do país.
Quanto maior a dificuldade para estabilizar a dívida, maior tende a ser a pressão sobre juros futuros, financiamento do governo e custo do crédito na economia.
O resultado de abril apresentado pelo Banco Central mostra que houve avanço no esforço fiscal, mas também evidencia que a trajetória das contas públicas continua fortemente condicionada pelo custo da dívida.
Enquanto os juros permanecerem elevados, superávits pontuais tendem a produzir efeitos limitados sobre a velocidade de crescimento do endividamento público.





