A recuperação judicial do Grupo João Santos deu mais um passo relevante com a venda de uma jazida de calcário em Ribeirão Grande (SP) para a Votorantim Cimentos por R$ 250 milhões. A operação amplia o caixa da companhia e reforça a estratégia de reduzir um endividamento que chegou a cerca de R$ 4 bilhões.
Mais do que uma transação no setor de cimento, o negócio mostra como a sobrevivência financeira do grupo passou a depender da monetização de ativos considerados não essenciais. O movimento ocorre após anos de crise empresarial, disputas societárias e dificuldades para manter operações industriais.
A venda também sinaliza uma mudança de fase no processo. Após anos concentrada em batalhas judiciais e negociações com credores, a reestruturação passa a produzir efeitos concretos na redução do passivo.
Como a recuperação judicial da João Santos chegou a esse ponto
A crise do Grupo João Santos se tornou pública em 2022, quando a empresa ingressou em recuperação judicial após um longo período de deterioração financeira.
O conglomerado, que chegou a ocupar posição de destaque na indústria cimenteira brasileira por meio da marca Cimento Nassau, acumulou passivos tributários, trabalhistas e financeiros ao longo dos anos.
Entre os fatores apontados para a crise estão:
- Disputas sucessórias entre herdeiros após a morte do fundador João Pereira dos Santos;
- Aumento do endividamento;
- Fechamento de unidades industriais;
- Perda de competitividade no mercado;
- Dificuldades de gestão e governança.
O resultado foi uma dívida que alcançou aproximadamente R$ 4 bilhões, tornando necessária uma ampla renegociação com credores e órgãos públicos.
Venda de ativos virou peça central da recuperação judicial
Dentro da recuperação judicial, a venda de ativos se tornou uma das principais ferramentas da João Santos para gerar caixa e aliviar a pressão financeira acumulada ao longo dos últimos anos.
Os recursos obtidos com a operação, como a realizada com a Votorantim Cimentos, terão diferentes destinos, incluindo:
- Despesas do processo;
- Obrigações previstas no plano de recuperação;
- E a amortização de dívidas contraídas durante a reestruturação.
Uma das prioridades é o financiamento DIP, modalidade emergencial usada por empresas em recuperação para manter suas atividades. O grupo pretende destinar cerca de R$ 200 milhões da operação para reduzir esse passivo e fortalecer a execução da recuperação judicial da João Santos. A lógica é diminuir o peso da dívida para preservar operações consideradas estratégicas e ampliar as chances de conclusão do processo de reestruturação.
O que ainda falta para a recuperação judicial da João Santos avançar
A situação, contudo, ainda está longe de ser resolvida, apesar do progresso. Isso porque a companhia continua negociando a venda de outros ativos relevantes, incluindo uma usina sucroalcooleira em Pernambuco avaliada em cerca de R$ 350 milhões.
O grupo também enfrentou disputas judiciais envolvendo herdeiros e credores, que chegaram a ameaçar o andamento do processo de recuperação. Decisões recentes da Justiça permitiram a continuidade do plano de alienação patrimonial.
Esse cenário evidencia um desafio comum em grandes recuperações judiciais: reduzir a dívida sem comprometer a capacidade operacional necessária para gerar receitas futuras.
A recuperação judicial da João Santos entra agora em uma etapa decisiva. A venda da jazida para a Votorantim mostra que o plano de reestruturação começa a produzir resultados financeiros concretos. Porém, a redução definitiva do passivo ainda dependerá da conclusão de novas negociações e da capacidade do grupo de transformar patrimônio em recursos para sustentar sua recuperação.





