A dívida da Raízen voltou ao centro das atenções do mercado após a companhia anunciar, nesta quinta-feira (04/06) a venda de sua operação de distribuição e comercialização de combustíveis na Argentina por US$ 1,42 bilhão, cerca de R$ 7,2 bilhões. O negócio reforça o caixa da empresa em um momento decisivo da renegociação com credores.
A operação ocorre enquanto a companhia tenta reestruturar aproximadamente R$ 65 bilhões em compromissos financeiros. Embora relevante, o valor obtido está longe de eliminar a pressão que levou a empresa a buscar uma recuperação extrajudicial.
A diferença entre os dois números ajuda a explicar por que investidores passaram a enxergar a venda menos como uma solução definitiva e mais como um passo dentro de um processo de reorganização muito maior.
Venda bilionária melhora o caixa, mas cobre apenas parte do passivo
O anúncio representa uma das maiores alienações de ativos realizadas pela companhia desde o início da estratégia de desalavancagem. O problema é que o tamanho da dívida acumulada pela Raízen reduziu o impacto relativo da operação.
Mesmo que todo o valor fosse destinado exclusivamente à redução do passivo financeiro, a venda representaria apenas uma fração dos cerca de R$ 65 bilhões que a empresa tenta renegociar com credores.
No entanto, isso não significa que a transação seja pequena, pelo contrário. O negócio amplia a liquidez da companhia, reduz a pressão de curto prazo sobre dívida e fortalece a posição da Raízen nas negociações em andamento.
Além do pagamento em dinheiro, a Mercuria assumirá as dívidas vinculadas à operação argentina, ampliando o efeito financeiro da transação. Além disso, segundo a companhia, os recursos líquidos serão direcionados ao fortalecimento da estrutura de capital.
Como a dívida da Raízen cresceu nos últimos anos
Após o IPO de 2021, a companhia acelerou investimentos em expansão operacional, logística e combustíveis renováveis. A estratégia foi estruturada em um ambiente favorável ao crescimento, mas encontrou obstáculos relevantes nos anos seguintes.
O avanço do etanol de milho, a perda de força dos investimentos ligados à agenda ESG, a pressão sobre os preços de açúcar e etanol e o ciclo de juros elevados reduziram a capacidade de retorno dos projetos enquanto o endividamento continuava crescendo. Nesse ambiente, a dívida da Raízen passou a avançar mais rapidamente do que a geração de caixa da companhia.
O impacto apareceu de forma contundente nos resultados. No terceiro trimestre da safra 2025/2026, a empresa registrou prejuízo de R$ 15,65 bilhões. No mesmo período, a dívida líquida avançou para R$ 55,3 bilhões e a alavancagem saltou de 3 vezes para 5,3 vezes o Ebitda.
Com a deterioração do balanço, a companhia iniciou negociações para reestruturar aproximadamente R$ 65 bilhões em obrigações financeiras e, em março, recorreu à recuperação extrajudicial.
Dívida da Raízen ainda exige muito mais do que uma venda bilionária
Os cerca de R$ 7,2 bilhões obtidos com a venda da operação argentina representam um reforço importante para o caixa da companhia. A comparação com os aproximadamente R$ 65 bilhões que a empresa tenta renegociar, porém, mostra que a transação está longe de encerrar os desafios financeiros enfrentados pela Raízen.
O negócio melhora a liquidez e fortalece a posição da empresa nas negociações com credores, mas não altera sozinho o quadro de endividamento acumulado após anos de expansão e investimentos. A própria necessidade de continuar vendendo ativos evidencia que a recuperação financeira depende de medidas mais amplas do que uma única operação.
Por isso, o mercado tende a enxergar o acordo com a Mercuria menos como uma solução definitiva e mais como um avanço dentro de um processo de reestruturação que ainda precisa produzir resultados concretos. O principal teste continuará sendo a capacidade de reduzir de forma consistente a dívida da Raízen nos próximos trimestres.





