A decisão do governo de Javier Milei de reduzir os impostos na Argentina sobre exportações agrícolas pode alterar a disputa entre os maiores exportadores de grãos da América do Sul. Ao oficializar um cronograma de cortes nas chamadas retenciones, o país busca estimular investimentos, ampliar a produção e ganhar competitividade no comércio internacional.
A medida afeta diretamente cadeias como soja, milho, trigo, cevada e derivados agroindustriais. Embora o impacto não seja imediato, a redução gradual da carga tributária pode aumentar a capacidade dos exportadores da Argentina de disputar compradores em mercados onde o Brasil consolidou posição nos últimos anos.
A mudança também revela uma estratégia mais ampla. Em vez de tratar as exportações apenas como fonte de arrecadação, o governo argentino passa a utilizá-las como instrumento para atrair dólares, incentivar investimentos e recuperar participação global.
O que muda com a redução dos impostos de exportação na Argentina
O Decreto Nº 423/2026 estabelece um programa de desoneração gradual para produtos agrícolas e agroindustriais.
Para trigo e cevada, a redução entrou em vigor imediatamente.
As alíquotas desses produtos foram reduzidas em:
- 2 pontos percentuais
- validade a partir de 4 de junho
- foco na safra 2026/27
Para soja, milho, girassol, sorgo e derivados, o governo definiu um cronograma mais longo.
No caso do complexo soja:
- redução de 0,25% ao mês durante 2027
- redução de 0,5% ao mês a partir de janeiro de 2028
- execução até dezembro de 2028
O decreto também permite que exportadores registrem imediatamente as Declarações Juradas de Vendas ao Exterior (DJVE) para embarques futuros, já considerando as alíquotas reduzidas.
Essa previsibilidade é um dos pontos mais relevantes da medida porque oferece segurança para decisões de plantio, investimento e comercialização.
Por que Javier Milei decidiu cortar as retenciones
As retenciones sempre estiveram entre os temas mais sensíveis do agronegócio argentino. Produtores rurais argumentam há anos que a tributação reduz margens, desestimula investimentos e limita a competitividade internacional.
O governo avalia que a redução gradual pode produzir um efeito contrário.
Entre os objetivos declarados estão:
- aumentar a produção agrícola;
- estimular novos investimentos;
- ampliar exportações;
- gerar entrada de divisas;
- fortalecer a inserção internacional da Argentina.
A previsibilidade tributária também se tornou um ativo importante para o país. Ao divulgar um cronograma de cortes até 2028, a administração Javier Milei tenta reduzir a incerteza que historicamente marcou a política agrícola argentina.
A medida ainda inclui um incentivo adicional para o setor energético. O decreto zerou a alíquota de exportação do biodiesel produzido a partir de óleos alternativos, como cártamo, colza, carinata e camelina.
O objetivo é incentivar novas cadeias ligadas à produção de combustível sustentável de aviação (SAF), mercado que deve ganhar relevância nos próximos anos.
Como a decisão pode aumentar a concorrência para o Brasil
O principal efeito para o Brasil não está nas novas alíquotas em si, mas no potencial ganho de competitividade dos exportadores argentinos ao longo dos próximos anos.
Historicamente, as retenciones funcionaram como um custo adicional para produtores e empresas exportadoras. Com a redução gradual do imposto, a Argentina pode melhorar sua posição em mercados estratégicos.
Os possíveis efeitos incluem:
- expansão da área cultivada;
- aumento da produção;
- crescimento das exportações;
- recuperação de participação global;
- maior competição por compradores internacionais.
Soja, milho e trigo tendem a concentrar boa parte dessa disputa.
O Brasil continua como uma potência agrícola global e mantém vantagens relevantes em escala, produtividade e logística em diversos mercados. Ainda assim, uma Argentina com menor tributação sobre exportações pode ampliar sua capacidade de competir em preço e rentabilidade.
O movimento também envia uma mensagem importante ao mercado internacional. Ao reduzir gradualmente os impostos sobre exportações, Buenos Aires sinaliza que pretende recuperar protagonismo em setores nos quais possui forte presença histórica.
Nesse contexto, a decisão pela qual a Argentina reduziu os impostos de exportações vai além de uma mudança tributária. Ela representa uma tentativa de reposicionar o país na competição global por mercados agrícolas e pode elevar a pressão competitiva sobre exportadores brasileiros nos próximos anos.





