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Produtos brasileiros escapam de tarifa dos Estados Unidos; veja quem ficou de fora

Os EUA propuseram uma sobretaxa de 12,5% contra países investigados por trabalho forçado, mas deixaram a carne bovina brasileira fora da medida. A decisão expõe uma contradição entre as acusações do relatório e os interesses econômicos americanos.
Imagem de carne bovina para ilustrar uma matéria jornalística sobre as tarifas dos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Carne, café e frutas escapam de tarifa dos EUA contra o Brasil. (Imagem: David Foodphototasty/Unsplash)

A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos de países investigados por supostas falhas no combate ao trabalho forçado trouxe uma surpresa para o agronegócio brasileiro. Apesar das críticas do governo americano à pecuária nacional, a cadeia da carne bovina ficou fora da medida.

A decisão reduz o risco imediato para um dos setores mais relevantes das exportações brasileiras e revela um ponto que passou despercebido em grande parte da cobertura: Washington utilizou a carne bovina como argumento da investigação, mas retirou o produto da lista de itens que poderiam ser atingidos.

A aparente contradição ajuda a entender os limites econômicos da ofensiva comercial americana e mostra como questões de abastecimento e competitividade continuam influenciando as decisões da Casa Branca.

Por que a carne bovina escapou da nova tarifa dos Estados Unidos

A proposta foi apresentada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) dentro de uma investigação envolvendo 60 economias, entre elas o Brasil.

O órgão concluiu que o país não possui mecanismos equivalentes aos americanos para impedir a entrada de produtos produzidos com trabalho forçado em terceiros países.

Como consequência, sugeriu uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos importados dessas economias.

Ao mesmo tempo, o governo americano publicou um anexo com centenas de códigos tarifários excluídos da medida.

Segundo o USTR, as exceções foram definidas para evitar:

  • interrupções em cadeias produtivas;
  • riscos de abastecimento;
  • aumento de custos para empresas;
  • pressão sobre os preços ao consumidor americano.

Entre os itens poupados estão:

  • carne bovina fresca, refrigerada e congelada;
  • cortes com e sem osso;
  • miúdos bovinos;
  • produtos processados à base de carne;
  • café verde e torrado;
  • frutas tropicais;
  • cacau e derivados;
  • fertilizantes.

A lista preserva justamente setores que possuem forte presença nas exportações brasileiras para os Estados Unidos.

O relatório cita a pecuária brasileira como exemplo

O aspecto mais curioso da proposta está no próprio relatório que embasa a investigação.

O documento afirma que produtores utilizaram trabalho forçado na pecuária brasileira e sustenta que falhas regulatórias ao longo da cadeia produtiva beneficiaram parte das exportações.

Segundo o USTR, a prevalência desse problema na produção de gado sugere que produtores utilizaram trabalho forçado na fabricação de ao menos parte dos produtos exportados.

A carne bovina aparece como um dos exemplos centrais utilizados pelo governo americano para justificar a abertura da investigação.

Mesmo assim, praticamente toda a cadeia bovina acabou excluída da sobretaxa proposta.

Foram retirados da medida:

  • cortes frescos;
  • carnes resfriadas;
  • carnes congeladas;
  • miúdos;
  • produtos industrializados.

A exclusão enfraquece a conexão direta entre a justificativa apresentada pelo relatório e os produtos efetivamente atingidos pela proposta tarifária.

Os EUA perderam espaço para o Brasil na China

O próprio documento americano traz outro dado relevante para compreender o contexto da disputa.

Segundo o relatório, as exportações brasileiras de carne bovina para a China cresceram de 94 mil toneladas em 2015 para 1,65 milhão de toneladas em 2025.

No mesmo período:

  • a participação brasileira nas importações chinesas passou de 38% para 53%;
  • a participação americana caiu de 6% para 2%.

O USTR argumenta que essa evolução foi favorecida por diferenças regulatórias e por falhas na fiscalização internacional do trabalho forçado.

O avanço brasileiro ocorreu justamente em um dos mercados mais estratégicos do comércio global de proteínas.

O dado mostra que a discussão ultrapassa questões trabalhistas e se conecta a uma disputa comercial cada vez mais intensa entre grandes exportadores de alimentos.

Ainda assim, a proposta não atingiu diretamente a carne brasileira.

O que a exclusão representa para o agronegócio

A decisão reduz o impacto potencial da medida sobre uma parte relevante da pauta exportadora brasileira.

Dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) mostram que a carne bovina respondeu por cerca de US$ 1,35 bilhão em embarques para os Estados Unidos em 2024.

O café não torrado somou aproximadamente US$ 1,9 bilhão.

Além desses produtos, a lista de exceções preserva segmentos importantes da:

  • cafeicultura;
  • fruticultura;
  • indústria de sucos;
  • cadeia do cacau;
  • produção de fertilizantes.

A manutenção dessas exportações fora da sobretaxa reduz riscos para produtores e exportadores enquanto a proposta continua em análise.

O que pode mudar até a decisão final

A medida ainda está em consulta pública e poderá sofrer alterações antes da decisão definitiva da Casa Branca.

Novos produtos podem ser incluídos ou removidos da lista de exceções conforme a avaliação do governo americano e das manifestações recebidas durante o processo.

Por enquanto, a carne bovina expõe uma das maiores inconsistências da proposta. O produto foi usado como argumento para justificar a investigação, aparece nas críticas do relatório oficial e simboliza a perda de espaço para o Brasil no mercado chinês. Mesmo assim, ficou fora das tarifas que os Estados Unidos pretendem impor aos países investigados.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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