A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos de países investigados por supostas falhas no combate ao trabalho forçado trouxe uma surpresa para o agronegócio brasileiro. Apesar das críticas do governo americano à pecuária nacional, a cadeia da carne bovina ficou fora da medida.
A decisão reduz o risco imediato para um dos setores mais relevantes das exportações brasileiras e revela um ponto que passou despercebido em grande parte da cobertura: Washington utilizou a carne bovina como argumento da investigação, mas retirou o produto da lista de itens que poderiam ser atingidos.
A aparente contradição ajuda a entender os limites econômicos da ofensiva comercial americana e mostra como questões de abastecimento e competitividade continuam influenciando as decisões da Casa Branca.
Por que a carne bovina escapou da nova tarifa dos Estados Unidos
A proposta foi apresentada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) dentro de uma investigação envolvendo 60 economias, entre elas o Brasil.
O órgão concluiu que o país não possui mecanismos equivalentes aos americanos para impedir a entrada de produtos produzidos com trabalho forçado em terceiros países.
Como consequência, sugeriu uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos importados dessas economias.
Ao mesmo tempo, o governo americano publicou um anexo com centenas de códigos tarifários excluídos da medida.
Segundo o USTR, as exceções foram definidas para evitar:
- interrupções em cadeias produtivas;
- riscos de abastecimento;
- aumento de custos para empresas;
- pressão sobre os preços ao consumidor americano.
Entre os itens poupados estão:
- carne bovina fresca, refrigerada e congelada;
- cortes com e sem osso;
- miúdos bovinos;
- produtos processados à base de carne;
- café verde e torrado;
- frutas tropicais;
- cacau e derivados;
- fertilizantes.
A lista preserva justamente setores que possuem forte presença nas exportações brasileiras para os Estados Unidos.
O relatório cita a pecuária brasileira como exemplo
O aspecto mais curioso da proposta está no próprio relatório que embasa a investigação.
O documento afirma que produtores utilizaram trabalho forçado na pecuária brasileira e sustenta que falhas regulatórias ao longo da cadeia produtiva beneficiaram parte das exportações.
Segundo o USTR, a prevalência desse problema na produção de gado sugere que produtores utilizaram trabalho forçado na fabricação de ao menos parte dos produtos exportados.
A carne bovina aparece como um dos exemplos centrais utilizados pelo governo americano para justificar a abertura da investigação.
Mesmo assim, praticamente toda a cadeia bovina acabou excluída da sobretaxa proposta.
Foram retirados da medida:
- cortes frescos;
- carnes resfriadas;
- carnes congeladas;
- miúdos;
- produtos industrializados.
A exclusão enfraquece a conexão direta entre a justificativa apresentada pelo relatório e os produtos efetivamente atingidos pela proposta tarifária.
Os EUA perderam espaço para o Brasil na China
O próprio documento americano traz outro dado relevante para compreender o contexto da disputa.
Segundo o relatório, as exportações brasileiras de carne bovina para a China cresceram de 94 mil toneladas em 2015 para 1,65 milhão de toneladas em 2025.
No mesmo período:
- a participação brasileira nas importações chinesas passou de 38% para 53%;
- a participação americana caiu de 6% para 2%.
O USTR argumenta que essa evolução foi favorecida por diferenças regulatórias e por falhas na fiscalização internacional do trabalho forçado.
O avanço brasileiro ocorreu justamente em um dos mercados mais estratégicos do comércio global de proteínas.
O dado mostra que a discussão ultrapassa questões trabalhistas e se conecta a uma disputa comercial cada vez mais intensa entre grandes exportadores de alimentos.
Ainda assim, a proposta não atingiu diretamente a carne brasileira.
O que a exclusão representa para o agronegócio
A decisão reduz o impacto potencial da medida sobre uma parte relevante da pauta exportadora brasileira.
Dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) mostram que a carne bovina respondeu por cerca de US$ 1,35 bilhão em embarques para os Estados Unidos em 2024.
O café não torrado somou aproximadamente US$ 1,9 bilhão.
Além desses produtos, a lista de exceções preserva segmentos importantes da:
- cafeicultura;
- fruticultura;
- indústria de sucos;
- cadeia do cacau;
- produção de fertilizantes.
A manutenção dessas exportações fora da sobretaxa reduz riscos para produtores e exportadores enquanto a proposta continua em análise.
O que pode mudar até a decisão final
A medida ainda está em consulta pública e poderá sofrer alterações antes da decisão definitiva da Casa Branca.
Novos produtos podem ser incluídos ou removidos da lista de exceções conforme a avaliação do governo americano e das manifestações recebidas durante o processo.
Por enquanto, a carne bovina expõe uma das maiores inconsistências da proposta. O produto foi usado como argumento para justificar a investigação, aparece nas críticas do relatório oficial e simboliza a perda de espaço para o Brasil no mercado chinês. Mesmo assim, ficou fora das tarifas que os Estados Unidos pretendem impor aos países investigados.





