A Zona Franca de Manaus (ZFM), o modelo de desenvolvimento econômico implantado pelo governo com o objetivo de viabilizar uma base econômica na região amazônica, começou a registrar um aumento expressivo no interesse de empresas que buscam expandir ou reorganizar suas operações industriais no Brasil. Segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), mais de 200 projetos para instalação de novas fábricas já receberam aprovação para os próximos três anos.
Caso todos avancem conforme o planejado, o número de indústrias instaladas na região poderá crescer cerca de 30% sobre a base atual, hoje próxima de 600 unidades. O movimento ocorre enquanto empresas reavaliam estratégias produtivas diante das mudanças trazidas pela reforma tributária.
Mais do que uma expansão regional, o avanço sugere que decisões de investimento começaram a mudar antes mesmo da conclusão da transição para o novo sistema de tributos sobre o consumo.
Empresas reorganizam produção para aproveitar vantagens competitivas
O interesse crescente na Zona Franca de Manaus não está concentrado em um único segmento. Os projetos aprovados envolvem áreas como eletroeletrônicos, motocicletas, ar-condicionado e, mais recentemente, medicamentos.
A indústria farmacêutica se tornou uma das principais apostas para diversificar o polo industrial. Até pouco tempo, apenas uma fabricante do setor operava na região. Agora, mais de seis projetos receberam aprovação.
A explicação passa pela preservação do modelo diferenciado de Manaus dentro da reforma tributária. Enquanto benefícios estaduais serão eliminados gradualmente até 2032, a região manteve proteção constitucional e recebeu mecanismos específicos para preservar sua competitividade.
Essa combinação levou empresas a estudar novas formas de distribuir suas operações pelo país.
Entre as estratégias avaliadas estão:
- produção de componentes na Zona Franca de Manaus,
- aproveitamento dos créditos tributários vinculados ao novo sistema;
- integração com fábricas instaladas em outros estados;
- montagem final próxima dos mercados consumidores.
O objetivo não é necessariamente transferir toda a produção para o Amazonas. Em muitos casos, as empresas buscam reorganizar etapas da cadeia produtiva para reduzir custos e ampliar a competitividade dos produtos.
Crescimento de Manaus alimenta debate sobre impactos no restante do país
O aumento da procura pela região ocorre em meio à disputa aberta pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que questiona na Justiça as regras criadas para preservar as vantagens da Zona Franca de Manaus após a reforma tributária.
A entidade argumenta que os novos mecanismos podem ampliar o diferencial competitivo da região e estimular a migração de investimentos. Porém, representantes da indústria amazonense contestam essa interpretação.
A avaliação predominante é que a expansão da Zona Franca de Manaus tende a complementar cadeias produtivas já existentes em outras regiões, especialmente no Sudeste, e não provocar um processo de desindustrialização. Inclusive, a própria estrutura das grandes empresas instaladas em Manaus reforça esse argumento.
Grupos como Samsung, LG e Foxconn já mantêm operações simultâneas em diferentes estados brasileiros, distribuindo etapas da produção conforme características logísticas, industriais e tributárias de cada localidade. Além disso, São Paulo continua sendo o principal fornecedor de insumos para o Polo Industrial de Manaus.
As compras realizadas junto a empresas paulistas ultrapassam:
- R$ 35 bilhões por ano;
- o volume adquirido de fornecedores estrangeiros;
- as compras feitas em diversos outros estados brasileiros.
Isso significa que uma expansão da atividade industrial amazonense também pode gerar aumento da demanda para fornecedores localizados fora da região Norte.
O desafio da Zona Franca de Manaus vai além dos incentivos fiscais
O avanço dos investimentos fortalece a posição da Zona Franca de Manaus, mas também aumenta a pressão sobre o próprio modelo econômico da região.
A atração de novas fábricas ocorre em um momento em que lideranças locais defendem uma indústria mais tecnológica, produtiva e conectada ao potencial econômico da Amazônia.
Nesse contexto, segmentos ligados à bioeconomia ganharam espaço nas discussões sobre o futuro do polo industrial. A expectativa é ampliar atividades que agreguem valor a recursos da região e reduzam a dependência de incentivos fiscais como principal fator de competitividade.
A discussão se tornou estratégica porque a proteção constitucional do modelo está garantida até 2073. Isso oferece horizonte de longo prazo para investimentos, mas também amplia a cobrança por resultados econômicos, tecnológicos e ambientais.
Se os projetos aprovados saírem do papel, a Zona Franca de Manaus poderá viver uma das maiores expansões industriais das últimas décadas, consolidando sua influência nas decisões de investimento e na reorganização das cadeias produtivas brasileiras.





