A produção industrial brasileira avançou 0,7% em abril frente a março e registrou crescimento em dez dos 15 locais pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado, apresentado pelo IBGE na Pesquisa Industrial Mensal Regional (PIM Regional), amplia a sequência positiva observada nos últimos meses, mas também reforça um contraste que vem marcando o setor em 2026.
Enquanto parte da indústria continua enfrentando dificuldades para investir e ampliar a produção diante do custo elevado do crédito, alguns estados conseguem manter ritmo de crescimento apoiados por setores menos sensíveis à política monetária.
O resultado ajuda a explicar por que a atividade industrial segue avançando mesmo em um ambiente de juros elevados. O crescimento existe, mas está longe de ocorrer de forma uniforme entre regiões e segmentos produtivos.
Juros altos continuam limitando parte da produção industrial brasileira
A taxa básica de juros permanece entre os principais obstáculos para a expansão industrial. O crédito mais caro reduz investimentos, encarece a renovação de máquinas e equipamentos e dificulta projetos de ampliação da capacidade produtiva.
Segundo o analista do IBGE Bernardo Almeida, os efeitos da política monetária restritiva continuam presentes sobre a indústria de transformação e sua cadeia produtiva.
Ao mesmo tempo, outros fatores ajudam a compensar parte dessa pressão sobre a produção industrial brasileira. Entre eles estão:
- mercado de trabalho mais aquecido;
- redução da taxa de desemprego;
- crescimento da massa salarial;
- manutenção da demanda em alguns setores.
Esse movimento cria uma situação desigual. Algumas atividades seguem pressionadas pelo custo financeiro, enquanto outras encontram espaço para crescer mesmo com a Selic elevada.
Estados conseguem crescer mesmo em ambiente restritivo
Na comparação com março, os maiores avanços da produção industrial vieram de estados que registraram expansão acima da média brasileira.
Os destaques foram:
- Bahia: 3,0%;
- Ceará: 2,3%;
- Espírito Santo: 2,1%;
- Minas Gerais: 2,1%.
São Paulo também teve papel relevante ao avançar 0,9%, influenciado principalmente pelos setores extrativo e de derivados de petróleo.
Na direção oposta, os recuos mais fortes ocorreram em:
- Mato Grosso: -5,2%;
- Pará: -5,0%;
- Pernambuco: -3,6%.
O caso paraense chama atenção porque ocorreu após três meses consecutivos de crescimento, período em que a indústria local acumulou ganho de 17,1%.
A diferença entre os resultados estaduais mostra que a recuperação industrial não segue um padrão nacional homogêneo. O desempenho depende cada vez mais da composição produtiva de cada região.
Indústria extrativa reduz impacto dos juros sobre a atividade
O comportamento da produção industrial brasileira em 2026 também revela o peso crescente das atividades ligadas à extração de recursos naturais.
Espírito Santo e Rio de Janeiro lideraram o crescimento na comparação com abril do ano passado, com altas de 32,9% e 10,1%, respectivamente.
Nos dois casos, o desempenho teve forte influência de atividades relacionadas a:
- Petróleo;
- Gás natural;
- Minério de ferro;
- Derivados de petróleo.
Segundo o IBGE, a indústria extrativa vem exercendo papel relevante ao sustentar parte do crescimento industrial nacional.
Diferentemente de diversos segmentos da transformação, esses setores possuem características específicas de investimento, contratos e demanda que reduzem parte da sensibilidade aos juros domésticos.
O efeito aparece também no acumulado do ano. Espírito Santo lidera o crescimento industrial de 2026 com avanço de 25,3%, enquanto Pernambuco registra alta de 19,7%, impulsionado pela produção de derivados de petróleo e biocombustíveis.
Produção industrial brasileira cresce, mas depende de poucos motores
O contraste ajuda a explicar por que a produção industrialcontinua avançando mesmo sem uma recuperação ampla de toda a cadeia manufatureira. Enquanto os juros elevados limitam parte dos investimentos produtivos, segmentos ligados à energia e à extração mineral seguem sustentando parcela importante da atividade econômica nacional.
A concentração do crescimento em atividades específicas também cria uma dependência maior de setores ligados a commodities e recursos naturais. Isso reduz a participação de segmentos mais sensíveis ao crédito, ao consumo e ao investimento privado.
A próxima divulgação do IBGE, o PIM regional referente a maio, deverá mostrar se esse padrão da produção industrial brasileira continuará predominando. Ou, pelo contrário, se a recuperação começará a alcançar uma parcela maior da indústria de transformação.





