O Grupo Prime, controlador da Prime Agro Produtos Agrícolas, protocolou na última terça-feira (16/06) um pedido de recuperação judicial na Justiça do Paraná com um passivo total de R$ 790,2 milhões. Segundo informações divulgadas pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o processo reúne seis empresas e cinco produtores rurais ligados à família Montans Braga.
O pedido foi protocolado em um momento de forte pressão financeira sobre empresas ligadas ao agronegócio. A combinação entre juros elevados, crédito mais escasso e deterioração das margens agrícolas reduziu a capacidade de pagamento de diversas companhias do setor.
Mais do que um caso isolado, a situação ajuda a ilustrar como a mudança do ambiente financeiro atingiu negócios que expandiram operações durante os anos de crédito abundante e custos menores de financiamento.
Recuperação judicial do Grupo Prime reflete mudança no cenário do agronegócio
Segundo a petição apresentada à Justiça, a crise decorre de uma combinação de fatores que afetou simultaneamente receitas e despesas financeiras.
Entre os principais elementos citados pelo grupo estão:
- Alta da Selic e do CDI
- Queda dos preços da soja e do milho
- Eventos climáticos adversos
- Restrição do crédito rural
- Ciclo de baixa da pecuária
O grupo afirma que parte relevante das obrigações foi assumida durante um período de crescimento operacional. Com a piora das condições de mercado, no entanto, a geração de caixa passou a ser insuficiente para acompanhar o aumento do custo financeiro.
Além disso, a defesa sustenta que a dificuldade é predominantemente financeira, não operacional. Com isso, o objetivo da recuperação judicial seria reorganizar os passivos e alongar os vencimentos para preservar as atividades.
Como está distribuída a dívida de R$ 790,2 milhões
Dos R$ 790,2 milhões informados no processo, R$ 397 milhões correspondem a créditos sujeitos à recuperação judicial. Outros R$ 394 milhões aparecem classificados como extraconcursais, categoria que normalmente não entra automaticamente no plano de pagamento aos credores.
A maior concentração está entre os credores quirografários, aqueles sem garantia real. Essa classe soma R$ 282 milhões distribuídos entre 311 credores, mostrando a pulverização da exposição financeira.
Já a classe com garantia real reúne R$ 106,1 milhões e possui apenas um credor listado: o Banco do Brasil.
Os créditos trabalhistas e acidentários totalizam R$ 2 milhões, enquanto micro e pequenas empresas concentram R$ 6,5 milhões.
Na parcela extraconcursal, o maior credor apontado é o Prime Agro Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com R$ 190 milhões. Também aparecem instituições como Santander, Caixa Econômica Federal, BTG Pactual, Itaú Unibanco e Bradesco.
A composição da dívida mostra como estruturas financeiras privadas, fundos de crédito, securitizadoras e bancos passaram a ocupar espaço crescente no financiamento das operações ligadas ao agronegócio.
O que a Justiça vai analisar nos próximos dias
O pedido de recuperação judicial ainda está em fase inicial. A Justiça do Paraná deverá analisar a documentação apresentada e decidir se as empresas e produtores rurais poderão tramitar de forma conjunta no mesmo processo.
Caso o processamento seja deferido, será nomeado um administrador judicial e aberto o prazo para apresentação do plano de recuperação.
A decisão também pode suspender execuções e cobranças por 180 dias, período conhecido como stay period, utilizado para viabilizar negociações com credores.
Recuperação judicial do Grupo Prime reforça pressão financeira sobre o agronegócio
Além da reestruturação das dívidas, o grupo pediu à Justiça que reconheça como essenciais à operação ativos como fazendas, equipamentos, veículos, caminhões, estrutura logística e uma aeronave. Caso obtenha esse reconhecimento, o Grupo Prime poderá proteger esses bens de medidas de apreensão durante o processo.
Nesse contexto, a recuperação judicial do Grupo Prime ocorre em um momento em que juros elevados, crédito mais restrito e margens pressionadas continuam afetando segmentos da cadeia agropecuária. Por isso, credores, fornecedores e empresas do setor acompanham o processo como um termômetro das dificuldades financeiras enfrentadas por negócios que dão suporte à produção rural.





