A implementação do euro digital deu um passo importante nesta terça-feira (23/06) após receber apoio da Comissão de Assuntos Econômicos do Parlamento Europeu. O projeto do Banco Central Europeu (BCE) pretende criar uma versão eletrônica oficial da moeda comum para pagamentos online e presenciais.
A proposta ganhou relevância em meio ao aumento das tensões entre Europa e Estados Unidos. Autoridades europeias passaram a enxergar a dependência de redes de pagamento estrangeiras como uma vulnerabilidade econômica e estratégica.
Mais do que lançar uma nova ferramenta financeira, a União Europeia busca fortalecer sua autonomia sobre um sistema de pagamentos que hoje depende amplamente de empresas americanas.
Antes mesmo da votação final, o avanço do projeto sinaliza que Bruxelas e Frankfurt enxergam os meios de pagamento como uma questão de soberania econômica.
Euro digital busca reduzir domínio de Visa e Mastercard
A motivação central do projeto vai além da modernização financeira. O BCE quer oferecer uma alternativa pública a sistemas privados que concentram boa parte dos pagamentos eletrônicos da zona do euro.
Quase dois terços dos pagamentos com cartão na região passam por empresas não europeias, incluindo Visa, Mastercard, PayPal e Apple Pay.
A preocupação aumentou após episódios recentes envolvendo sanções internacionais. Autoridades europeias passaram a discutir o risco de que infraestruturas financeiras controladas por empresas estrangeiras possam ser afetadas por decisões políticas externas.
Segundo o BCE, a moeda digital europeia permitiria que cidadãos e empresas realizassem pagamentos utilizando dinheiro emitido diretamente pelo banco central, preservando uma opção pública em uma economia cada vez mais digital.
Como funcionará a versão digital do euro
O sistema funcionará por meio de carteiras digitais oferecidas por bancos, fintechs e outras instituições autorizadas.
Os usuários poderão transferir recursos de suas contas tradicionais para uma conta específica de euro digital e utilizar o saldo para compras presenciais, pagamentos online ou transferências entre pessoas.
Entre os recursos previstos estão:
- Pagamentos por celular, aplicativo ou cartão;
- Operações online e presenciais;
- Modo offline com maior privacidade;
- Pagamentos condicionados à entrega de produtos;
- Parcelamentos integrados à plataforma.
O Banco Central Europeu afirma que o sistema preservará a privacidade dos usuários e que as transações não permitirão identificação direta dos pagadores em determinadas modalidades.
A instituição também reforça que o dinheiro em espécie continuará circulando, funcionando como complemento ao novo instrumento digital.
Bancos temem perda de depósitos com o euro digital
Os bancos europeus continuam entre os principais críticos do projeto. A preocupação é que clientes transfiram parte dos recursos mantidos em contas tradicionais para carteiras de euro digital, reduzindo a base de depósitos utilizada para crédito e outras operações financeiras.
O debate também envolve custos. A Federação Bancária Europeia estima que a adaptação do sistema possa custar cerca de 18 bilhões de euros, enquanto o BCE calcula despesas entre 4 bilhões e 5,8 bilhões de euros.
A divergência mostra que a discussão não se limita à tecnologia. O euro digital pode alterar receitas, participação de mercado e o papel dos bancos na infraestrutura de pagamentos da região.
Europa acelera autonomia financeira
O apoio da comissão econômica do Parlamento Europeu abre caminho para negociações finais entre os governos da União Europeia, a Comissão Europeia e o próprio Parlamento. A expectativa é concluir a regulamentação até o fim do ano.
Se o cronograma for mantido, o BCE pretende iniciar um projeto-piloto em 2027 e lançar o euro digital em 2029.
Mais do que uma inovação nos meios de pagamento, o projeto reflete uma estratégia de longo prazo da Europa para reduzir a dependência de infraestruturas financeiras controladas por empresas estrangeiras e ampliar sua autonomia em um cenário de crescente tensão geopolítica.





