Pesquisa da UFC analisa bairros de Fortaleza/CE mais propensos a casos de covid-19

Ainda no início da pandemia, uma equipe multidisciplinar desenvolveu modelo para prever o comportamento da pandemia nos bairros de Fortaleza e, com isso, ajudar na tomada de decisão dos gestores públicos.
Ainda no início da pandemia, uma equipe multidisciplinar desenvolveu modelo para prever o comportamento da pandemia nos bairros de Fortaleza e, com isso, ajudar na tomada de decisão dos gestores públicos.

A situação está crítica na capital do Ceará. De acordo com uma declaração da secretária da Saúde, Ana Estela Leite, na manhã desta sexta-feira (12), os leitos da administração pública e da rede particular exclusivos para a Covid-19 em Fortaleza podem “se esgotar a qualquer momento”.

Mas quais bairros seriam atingidos de forma mais severa pela pandemia da covid-19? É o que pesquisadores da Universidade Federal do Ceará estão tentando responder. Há um ano, logo no começo da pandemia, um grupo se reuniu para criar um modelo preditivo que apontasse as áreas de Fortaleza mais suscetíveis à pandemia. O trabalho foi elaborado por  estudiosos de áreas diferentes como Saúde Pública e Engenharia de Transportes.

A pesquisa

O estudo resultou em um relatório, ainda no primeiro semestre do ano passado, com os 20 bairros mais suscetíveis à pandemia e um conjunto de recomendações que foram apresentadas à Prefeitura de Fortaleza. Na época, as informações ajudaram na tomada de decisão das políticas que a Capital adotou no combate à propagação do vírus.

Com essa lista, os pesquisadores traçaram um conjunto de recomendações para atenuar os efeitos do vírus, como o reforço do trabalho de vigilância epidemiológica, oferta e garantia de testes, monitoramento do nível de mobilidade nos bairros e ações para sua redução, entre várias outras.
Muitas delas vieram a ser implantadas. Outras recomendações ainda hoje são um desafio, a exemplo da orientação de imunizar as populações de maior risco, inclusive com adoção do modelo de drive-thru.

Como foi feito

O modelo começa com o desenvolvimento de três indicadores. O primeiro é a carga de infectividade(casos confirmados da covid-19 notificados à Secretaria Municipal de Saúde até o dia 12 de março). Na época, Fortaleza ainda vivia o início da pandemia, com muitos casos de viajantes que vinham de fora, concentrados na área nobre.

Os pesquisadores avaliaram, então, como o vírus poderia se espalhar pela cidade. Para isso, utilizaram a Pesquisa Origem-Destino, um estudo amostral realizado em 2019 pela Prefeitura de Fortaleza, dentro do Plano de Acessibilidade Sustentável (PASFOR). Essa pesquisa entrevistou 67 mil pessoas, de 23 mil domicílios, para identificar um padrão de deslocamento das pessoas pela cidade.

Estudo envolveu pesquisadores de diversas áreas da UFC, da Prefeitura de Fortaleza e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
Estudo envolveu pesquisadores de diversas áreas da UFC, da Prefeitura de Fortaleza e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Combinando os dados de mobilidade das pessoas com os casos registrados até então, os pesquisadores construíram a “carga de infecção” – um índice que sinaliza a capacidade de circulação do vírus pelos bairros.
Mas a circulação do vírus em si não quer dizer necessariamente que a epidemia irá se disseminar de forma mais intensa e grave em determinada região da cidade. Em locais em que há mais aglomerado urbano, por exemplo, o vírus tende a se espalhar de forma mais rápida, por exemplo.

Para avaliar isso, os pesquisadores tomaram como base sete indicadores sociais: proporção de pessoas com mais de dois moradores por dormitório; população analfabeta; população em extrema pobreza; domicílio sem água e banheiro; proporção de desempregados; índice Gini de renda familiar; e pessoas vivendo em aglomerados subnormais.

Pesquisadores desenvolveram mapa, ainda no início da pandemia, com a propensão dos bairros de Fortaleza de registrarem casos de covid-19
Pesquisadores desenvolveram mapa, ainda no início da pandemia, com a propensão dos bairros de Fortaleza de registrarem casos de covid-19
Mobilidade

Um aspecto importante chamou a atenção sobre o papel da mobilidade urbana, quando os dados ainda eram bastante escassos. Com base na pesquisa Origem-Destino, a equipe conseguiu quantificar o impacto das viagens para o trabalho por meio de transporte coletivo, especialmente quando o destino era a região central da cidade.

O estudo teve papel importante também ao, rapidamente, reforçar a necessidade de monitorar e restringir a mobilidade entre bairros, medidas que já vinham sendo implantadas pela Prefeitura de Fortaleza, mas com resistências de diferentes setores.

O estudo “Propensity for Covid-19 severe epidemic among the populations of the neighborhoods of Fortaleza, Brazil, in 2020” (Propensão à epidemia grave de Covid-19 da população residente nos bairros de Fortaleza em 2020, em tradução livre) foi publicado na revista BMC Public Health em outubro de 2020. A revista possui Qualis A1 e está disponível na íntegra aqui (em inglês).

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