A instabilidade política no Brasil deixou de ser apenas ruído entre Poderes e passou a pesar diretamente sobre a economia brasileira. Empresas, investidores e novos projetos tendem a adotar mais cautela quando não há previsibilidade sobre governo, Congresso e instituições.
A avaliação é de Sérgio Melo, presidente da Academia Cearense de Economia e ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em entrevista exclusiva ao Economic News Brasil. Para ele, o país vive um ambiente de desconfiança institucional, com efeitos sobre investimentos, atração de capital externo e crescimento sustentável.
“A palavra de ordem no momento é cautela”, afirmou Melo, que também controla o Grupo SM Consultoria.
No contexto econômico, instabilidade política significa dificuldade de prever decisões do governo, do Congresso Nacional e das instituições. Essa incerteza aumenta o risco percebido, deteriora o ambiente de negócios e torna empresas mais cautelosas antes de investir, contratar ou ampliar operações.
O diagnóstico ajuda a explicar como a instabilidade política afeta a economia brasileira: ela muda o cálculo de risco e pode chegar à rotina econômica por meio de investimento menor, contratação mais lenta, crédito mais seletivo, preços pressionados e crescimento mais fraco.
Desconfiança institucional virou custo econômico
Sérgio Melo vê a desconfiança nas três esferas de poder como um dos principais fatores de cautela no Brasil. Segundo ele, há preocupação crescente com decisões do Executivo, do Congresso Nacional e do Judiciário.
“Muita gente, muita gente mesmo, desconfia do poder que está hoje na mão do Congresso, do Executivo e do Judiciário”, afirmou Melo ao Economic News Brasil.
Essa percepção pesa porque investimento depende de previsibilidade. Empresas não decidem expansão, contratação ou novos projetos apenas olhando demanda e custo. Elas também avaliam segurança institucional, estabilidade das regras e risco de mudanças repentinas.
Em um ambiente político instável, decisões que poderiam gerar emprego, consumo e produção ficam em compasso de espera. A política passa a entrar na planilha das empresas como risco, custo e incerteza.
A crítica de Melo não se limita ao governo ou ao Congresso. Ela aponta para um problema mais amplo: quando a confiança institucional enfraquece, a economia passa a operar em modo defensivo.
Como a instabilidade política afeta a economia brasileira
A instabilidade política afeta a economia brasileira porque reduz a capacidade de antecipar decisões públicas. Quando empresas e investidores não conseguem prever regras, votações e prioridades, o custo de esperar pode parecer menor do que o custo de investir.
Esse freio nem sempre aparece primeiro nos indicadores oficiais. Antes disso, ele surge nos planos das empresas: projetos são adiados, caixa é preservado, contratações perdem urgência e novos aportes ficam condicionados a sinais mais claros.
Para Sérgio Melo, esse ambiente reduz a disposição para assumir risco. A falta de previsibilidade atrapalha investimentos, dificulta a atração de recursos externos e afasta novos negócios.
“Essa falta de previsibilidade atrapalha investimentos, atrapalha a atração de recursos do exterior e afasta novos projetos”, disse Melo.
O impacto da instabilidade política nos investimentos aparece justamente nesse ponto. A economia não trava de uma vez, mas perde velocidade quando capital, expansão e contratações passam a depender de um cenário político difícil de precificar.
Congresso imprevisível eleva custo político e fiscal
Na avaliação de Sérgio Melo, o governo federal terá mais dificuldade para aprovar medidas relevantes até o fim do ano, especialmente quando a pauta não tiver interesse direto dos congressistas.
Para o economista, propostas com impacto positivo para parlamentares ainda podem avançar. Fora desse campo, o Executivo tende a enfrentar mais resistência, menos tempo de negociação e maior custo político para formar maioria.
Esse cenário amplia a instabilidade política no Brasil. Quando o governo perde capacidade de antecipar o comportamento do Congresso, empresas e investidores também perdem clareza sobre quais medidas podem sair do papel e quais ficarão travadas.
A perda de previsibilidade também pode elevar o custo fiscal das negociações. Medidas travadas no Congresso tendem a exigir concessões, compensações ou mudanças de desenho para formar maioria, o que aumenta a conta política e econômica da articulação.
Risco político coloca investimentos em modo de espera
O economista também cita crescimento da proteção patrimonial no Brasil nos últimos anos. Esse movimento mostra que parte dos agentes econômicos prefere preservar capital a ampliar exposição em um cenário de risco político no Brasil.
Na prática, a cautela chega à economia real. Menos investimento significa expansão adiada, contratação mais lenta, menor circulação de capital e crescimento abaixo do potencial. Em alguns setores, a incerteza também pode acelerar repasses de custo para preços.
O efeito não fica restrito a empresários ou investidores. Quando empresas seguram investimento, a economia tende a gerar menos oportunidades, absorver menos mão de obra e avançar com menor produtividade.
Esse é o ponto central da análise de Melo: a instabilidade institucional deixa de ser um problema abstrato quando passa a influenciar decisões concretas de capital, emprego, preço e crescimento.
Jornada 6×1 expõe risco de decisão sem debate setorial
Sérgio Melo também criticou a possibilidade de aprovação ampla da mudança na jornada 6×1 sem discussão mais profunda por setor. Para ele, uma medida uniforme pode criar impacto desigual entre empresas e segmentos da economia.
“Uma canetada passando para 6×1 pode ser um problema para a economia brasileira”, afirmou.
Na visão do economista, a economia não responde apenas a decisões políticas. Custos, produtividade, margem operacional e capacidade de adaptação precisam ser considerados antes de qualquer mudança estrutural nas relações de trabalho.
Os riscos apontados por Melo incluem:
- aumento de custos para empresas menores;
- pressão sobre preços;
- dificuldade de adaptação em alguns setores;
- possibilidade de demissões em casos específicos.
O alerta expõe o conflito entre intenção social e execução econômica. Sem calibragem por setor, uma medida trabalhista pode redistribuir custos de forma desigual e pressionar justamente empresas com menor capacidade de absorção.
A jornada 6×1 entra, nesse contexto, como exemplo de decisão política com efeito econômico direto. O debate deixa de ser apenas trabalhista quando passa a envolver preço, emprego, produtividade e sobrevivência de empresas menores.
Instabilidade institucional limita crescimento e abertura do Brasil
Além da tensão interna, Sérgio Melo vê um desafio estrutural: a baixa inserção do Brasil na economia internacional. Segundo ele, o país segue fechado e participa pouco das transações globais.
O economista citou o acordo Mercosul-União Europeia como avanço importante, mas ressaltou que ainda há distância entre o entendimento político e sua transformação em resultado econômico concreto.
Para Melo, o Brasil precisa de uma estratégia mais clara de crescimento sustentável. Isso passa por previsibilidade institucional, abertura econômica, atração de investimentos e capacidade de competir melhor no cenário internacional.
A incerteza política no país amplia esse limite. Sem confiança sobre regras internas e direção econômica, o Brasil perde força para converter acordos, reformas e oportunidades externas em investimento produtivo.
Em uma economia com baixa integração global, a instabilidade institucional pesa ainda mais. O país precisa atrair capital, tecnologia, parceiros comerciais e novos mercados, mas essa agenda depende de segurança jurídica, confiança empresarial e ambiente de negócios menos instável.
Cautela domina decisões econômicas no país
A leitura de Sérgio Melo converge para um diagnóstico central: a instabilidade política passou a interferir na economia porque afeta confiança, planejamento e apetite a risco.
O governo ainda pode aprovar medidas no Congresso, mas tende a enfrentar mais dificuldade quando a pauta não dialoga com os interesses parlamentares. Esse limite reduz a margem de ação do Executivo e aumenta o peso das negociações.
Ao mesmo tempo, empresas e investidores passam a observar o ambiente institucional antes de tomar decisões. Em vez de expandir, muitos preferem esperar, preservar patrimônio ou adiar projetos até que haja maior clareza.
No curto prazo, o efeito é a cautela. No médio prazo, o risco é mais profundo: menos capital, menos negócios e crescimento mais lento. Para Sérgio Melo, esse é o custo econômico da instabilidade política no Brasil: menos previsibilidade para investir, mais cautela para contratar e maior risco de o país crescer abaixo do próprio potencial.



