Novo serviço de logística da Amazon muda disputa com Mercado Livre por entregas mais rápidas

Amazon transforma logística em serviço no Brasil, pressiona Mercado Livre e disputa custo, escala e controle do e-commerce.
Amazon Supply Chain Services Brasil com caixas da Amazon em operação logística
Amazon abre sua logística como serviço no Brasil e acelera disputa direta com o Mercado Livre por escala e eficiência. (Foto: Reprodução)

O novo serviço de logística da Amazon no Brasil (Amazon Supply Chain Services) deve reposiciona a empresa no país ao transformar sua rede logística em produto. A mudança coloca a companhia em disputa direta por custo e prazo com operadores globais e amplia a pressão sobre o domínio do Mercado Livre.

A iniciativa acelera a monetização da infraestrutura. Depois da AWS (Amazon Web Services), a plataforma de computação em nuvem mais abrangente e adotada no mundo, a Amazon tenta converter serviços de logística em receita recorrente, entrando em um mercado estimado em US$ 1,3 trilhão e elevando o peso estratégico do Brasil na operação global.

A mudança altera o jogo competitivo. A empresa deixa de operar apenas o próprio varejo e passa a vender capacidade logística a terceiros, conectando transporte, armazenagem e entrega final em uma única oferta.

AWS da logística: Amazon tenta transformar custo em margem

O Amazon Supply Chain Services reúne frete internacional, fulfillment e última milha, posicionando a empresa como operadora global de 3PL (third-party logistics).

A lógica segue o modelo da AWS. A infraestrutura que antes consumia caixa passa a ser vendida como serviço, com potencial de escala e ganho de margem conforme a rede ganha densidade.

A vantagem está na integração com dados de consumo e demanda. Isso permite reduzir ociosidade e otimizar rotas. O limite aparece no custo inicial elevado, já que expansão e subsídios pressionam resultados no curto prazo.

Brasil vira laboratório de escala em mercado ainda ineficiente

No Brasil, o serviço de logística da Amazon ganha tração em um ambiente com baixa penetração de e-commerce e gargalos logísticos estruturais. A empresa investiu cerca de R$ 55 bilhões no país em dez anos.

Além disso, a operação acelerou. Nos últimos 18 meses, foram adicionados 240 hubs, totalizando 300 unidades. A empresa já oferece:

  • entrega no mesmo dia em mais de 200 cidades
  • entrega no dia seguinte em cerca de 3.600 municípios
  • abertura de três centros logísticos por semana em 2026

A mudança organizacional destravou decisões. A redução de níveis hierárquicos aproximou a liderança local da estratégia global, acelerando expansão e cadastro de produtos no marketplace.

Mercado Livre mantém vantagem com escala e crédito

Apesar dos avanços da Amazon em serviços de logística, a disputa por entregas mais rápidas com o líder local já começa desigual. O Mercado Livre opera cerca de 3,4 milhões de metros quadrados de área logística no Brasil, enquanto a Amazon soma aproximadamente 709 mil metros quadrados.

Essa diferença não está apenas no tamanho da rede, mas na forma como ela se traduz em operação. Com mais investimento em centros distribuídos pelo país, o Mercado Livre mantém produtos mais próximos do consumidor, o que reduz o custo de envio e encurta prazos — dois fatores que influenciam diretamente a decisão de compra.

Os resultados mais recentes mostram como essa vantagem já aparece em escala e eficiência. O Mercado Livre encerrou 2025 com 121 milhões de compradores ativos na América Latina e receita de US$ 28,9 bilhões, ao mesmo tempo em que expandiu o volume de envios em 41%.

Esse crescimento veio acompanhado de ganho operacional. Quase 75% das entregas rápidas foram concluídas em até 48 horas, enquanto o custo unitário de frete no Brasil caiu 11% no período.

Nesse contexto, a vantagem competitiva do Mercado Livre em relação a Amazon vai além de serviços de logística. O Mercado Pago, banco digital e plataforma de pagamentos do grupo, amplia a retenção ao integrar crédito, pagamentos e conta digital dentro do mesmo ecossistema.

A operação financeira encerrou o ano com 78 milhões de usuários ativos mensais e uma carteira de crédito de US$ 12,5 bilhões, o que aumenta a dependência dos vendedores e eleva o custo de migração para outras plataformas.

Crescimento rápido pressiona margem e aumenta risco regulatório

O Amazon Supply Chain Services Brasil depende de escala para tornar a operação mais eficiente. Quanto mais pedidos passam pela mesma rede, menor tende a ser o custo por entrega — um efeito conhecido no setor como ganho de densidade.

O problema é o tempo dessa equação. No curto prazo, a expansão exige investimento elevado em infraestrutura e subsídios para atrair vendedores, o que pressiona margens antes que o volume seja suficiente para compensar esse custo.

Para acelerar essa capilaridade sem ampliar demais os custos fixos, a Amazon recorre à expansão de galpões logísticos e ao modelo de parceiros locais de entrega, o chamado DSP. A estratégia amplia a cobertura e reduz a necessidade de frota própria. Porém, aumenta o desafio de manter padrão de serviço em um país com logística urbana complexa.

Ao mesmo tempo, o avanço da operação eleva a pressão regulatória. A Amazon atua como marketplace, varejista e prestadora de serviços logísticos para os mesmos vendedores, o que tende a ampliar questionamentos sobre uso de dados e condições de concorrência.

Amazon disputa transformar logística em plataforma antes do Mercado Livre

O serviço de logística da Amazon no Brasil amplia a ambição da empresa para além da eficiência operacional. A estratégia passa a tratar infraestrutura como produto global, replicando a lógica que transformou a AWS em uma das principais fontes de receita da companhia.

A disputa deixa de ser apenas por prazo de entrega. Passa a envolver controle de custo, dados operacionais e relacionamento com vendedores — áreas em que o Mercado Livre já opera com escala e integração financeira.

O ritmo de expansão indica uma tentativa de reduzir essa distância antes que a vantagem do concorrente se torne estruturalmente mais difícil de reverter.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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