A escala 5×2 no varejo começa a sair do debate e entra na operação real no Brasil. A estreia da marca sueca de fast-fashion H&M (Hennes & Mauritz) no Rio de Janeiro, que ocorreu no último sábado (25/04), traz um teste direto de um modelo que rompe com o padrão dominante 6×1 e expõe um dilema central do setor: melhorar a jornada de trabalho custa mais, e alguém precisa pagar essa conta.
No Shopping Rio Sul, em Botafogo, os 87 funcionários da nova unidade da H&M no Brasil trabalharão com dois dias de folga por semana, em um formato ainda raro no varejo brasileiro.
A mudança não aparece para o consumidor, mas altera a base da operação. Escalas mais curtas exigem reorganização de turnos e ampliam a necessidade de equipe para manter o funcionamento diário, sobretudo em shopping centers, onde o fluxo se concentra em horários longos e fins de semana.
Ao entrar no mercado com esse formato, a H&M transforma a loja em um teste desde o primeiro dia. O impacto não está apenas na rotina dos funcionários, mas na forma como custo, produtividade e preço se equilibram no varejo.
Escala 5×2 no varejo pressiona custo e operação
Adotar a escala significa aumentar o número de folgas sem reduzir o tempo de funcionamento da loja. Na prática, isso exige mais funcionários ou uma engenharia mais complexa de jornadas para cobrir todos os turnos.
O efeito direto é o aumento do custo com pessoal, um dos principais componentes da operação no varejo de moda. Em um setor com margens ajustadas, esse tipo de decisão precisa gerar retorno em eficiência, vendas ou redução de perdas operacionais.
O custo da escala 5×2 no varejo tende a aparecer em algum ponto da cadeia. Pode ser diluído em preços, absorvido na margem ou compensado por ganho de produtividade. Nenhuma das alternativas é neutra para o consumidor ou para o negócio.
A H&M reconhece esse impacto, especialmente em um primeiro trimestre de pressão nas vendas, mas aposta em outro ganho: reduzir a rotatividade, um problema estrutural do varejo, que gera custos recorrentes com contratação, treinamento e perda de produtividade.
Estratégia de entrada usa jornada como vantagem competitiva
A escolha da jornada não funciona como detalhe operacional. Ela se conecta diretamente com o momento da H&M no país, onde a marca ainda constrói presença e disputa mão de obra com redes já estabelecidas.
A companhia já opera lojas em São Paulo e inicia a expansão para outras regiões, incluindo novas unidades no Rio. Sustentar esse crescimento depende de equipes mais estáveis, o que transforma a escala em ferramenta de atração e retenção.
Ao oferecer dois dias de folga por semana, a empresa reposiciona a proposta de trabalho no varejo. Isso pode facilitar contratações e reduzir a necessidade de reposição constante. Portanto, um dos principais gargalos operacionais do setor.
Escala 5×2 pode pressionar concorrentes no varejo
A loja da H&M no Rio Sul foi aberta ao lado da Renner, inserindo o novo modelo diretamente em um ambiente competitivo. A disputa não se limita ao consumidor, mas se estende à atração de trabalhadores.
Se a escala 5×2 no varejo resultar em menor rotatividade e melhor desempenho, o efeito tende a se espalhar. Concorrentes podem enfrentar pressão para rever jornadas, principalmente em regiões com maior disputa por mão de obra.
O problema é que nem todas as empresas têm a mesma capacidade de absorver custos. Redes menores ou com margens mais apertadas podem ter dificuldade para acompanhar sem impacto direto no preço ou na rentabilidade.
Fim da escala 6×1 deixa de ser teoria e entra na prática
O avanço da escala 5×2 no varejo acontece em paralelo ao debate sobre o fim da escala 6×1 no Brasil. Hoje, a legislação permite jornadas de até 44 horas semanais, o que sustenta o modelo dominante no comércio.
No Congresso, propostas discutem reduzir a carga semanal e limitar esse formato, abrindo espaço para jornadas mais curtas.
O impacto, porém, é direto: trabalhar menos dias sem reduzir salário aumenta o custo por funcionário. No varejo, isso exige mais contratações ou ajustes operacionais para manter lojas abertas todos os dias.
Ao adotar a escala 5×2 desde a abertura no Rio, a H&M antecipa esse cenário e testa, na prática, um modelo que ainda é tratado como hipótese no restante do setor de varejo.
O que está em jogo além da abertura de uma loja
A unidade do Rio Sul tem cerca de 1.400 metros quadrados e reúne linhas femininas, masculinas, esportivas e acessórios. Mas já planeja abertura de lojas com categorias adicionais, como moda infantil e itens de casa.
Esse avanço amplia o peso do teste. A escala 5×2 deixa de ser uma escolha pontual no varejo e passa a ser um possível padrão de operação nas próximas unidades, dependendo do desempenho da primeira experiência fora de São Paulo.
A estreia da H&M no Rio, portanto, não trata apenas da chegada de uma nova marca internacional. Ela coloca em prática um modelo que pode redefinir a forma como o varejo organiza suas equipes — sem garantir que todos conseguirão seguir o mesmo caminho.



