A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, realizada no último sábado (03/01), e que levou à captura de Nicolás Maduro, levantou dúvidas sobre possíveis efeitos econômicos globais, sobretudo nos mercados de petróleo, ouro e exportações. Para o Brasil, porém, a relação de comércio entre Brasil e Venezuela já parte de uma base reduzida, construída ao longo de anos de enfraquecimento da relação bilateral.
Esse ponto de partida ajuda a explicar por que analistas avaliam que eventuais reflexos diretos sobre a economia brasileira tendem a ser limitados. Afinal, antes mesmo da escalada militar, o intercâmbio comercial entre os dois países já vinha perdendo espaço de forma contínua.
Comércio Brasil Venezuela: peso na balança externa
Em 2024, as exportações brasileiras para a Venezuela somaram R$ 1,196 bilhão, segundo o Comex Stat. O valor representa queda de 59% em relação a 2015, quando as vendas atingiram R$ 2,9 bilhões. Ou seja, a retração antecede o episódio recente e já mostrava esfriamento nas relações comerciais entre os vizinhos.
Além disso, a Venezuela respondeu por apenas 0,4% das exportações totais do Brasil no ano passado. Como comparação, o volume exportado ao país equivaleu a cerca de um terço do que a Colômbia comprou de produtos brasileiros em 2024. Esse contraste dimensiona o peso atual das relações comerciais Brasil Venezuela.
Já do lado das importações, o Brasil comprou R$ 422 milhões em produtos venezuelanos em 2024, recuo de 38% frente a 2015. Esse fluxo sempre foi inferior às exportações brasileiras e também perdeu escala ao longo da última década.
Comércio Brasil Venezuela: perfil das trocas
A pauta exportadora segue concentrada em itens básicos. Em 2024, açúcares, melaços, alimentos e milho responderam por mais de 40% das vendas. Em 2025, até novembro, máquinas agrícolas (com exceção de tratores) ganharam espaço e passaram a representar 10,6% das exportações. Ainda assim, o fluxo comercial Brasil Venezuela permaneceu restrito.
Até meados da década passada, a relação tinha maior peso no agronegócio. Em 2014, a Venezuela chegou a importar cerca de US$ 2,9 bilhões em produtos agropecuários. Porém, a partir de 2016, a crise econômica e as restrições financeiras reduziram de forma acentuada a capacidade de compra do país.
Comércio Brasil Venezuela e o contexto regional
A Venezuela integra o programa Rotas de Integração Sul-Americana. A única ligação formal com o Brasil incluída no plano é a BR-174, em Roraima, chamada de Troncal-10 em território venezuelano. O objetivo é facilitar o escoamento regional de produtos.
Segundo técnicos do Ministério do Planejamento, a deterioração econômica venezuelana reduziu a relevância prática dessa infraestrutura. Assim, mesmo com projetos de integração, o intercâmbio comercial permaneceu limitado.
Trocas comerciais e os efeitos indiretos
Por fim, os principais riscos para o Brasil aparecem fora da relação bilateral direta. O Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) avalia que a ofensiva pode pressionar preços do petróleo, além de elevar custos de fretes marítimos e seguros, com reflexos sobre o setor de óleo e gás.
Já no plano político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou a ação dos Estados Unidos e afirmou que ataques desse tipo violam o direito internacional. Ainda assim, ministérios ligados ao comércio exterior e à energia não divulgaram análises técnicas sobre efeitos específicos para o Brasil.
Dessa forma, o comércio entre Brasil e Venezuela funciona mais como contexto do que como foco de risco imediato. A verdade é que a troca bilateral já perdeu escala ao longo da última década, e, por esse motivo, os possíveis impactos do episódio tendem a se concentrar no ambiente global de energia e logística.











