Mesmo com o desemprego em patamar historicamente baixo e a inflação sob controle, a dívida das famílias alcançou níveis elevados no Brasil. Dados do Banco Central mostraram que o endividamento chegou a 49,8% da renda anual, o maior nível do atual mandato presidencial. Na prática, quase metade do que os lares recebem em um ano já está comprometida com obrigações financeiras.
Esse quadro contrasta com um mercado de trabalho ainda favorável. Ainda assim, a combinação entre juros elevados e crédito caro tem limitado o alívio esperado no orçamento doméstico, sobretudo para quem depende de linhas livres.
Dívida das famílias e o peso do crédito caro
A dívida das famílias cresce em um ambiente no qual a taxa Selic está em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006. Esse nível se reflete diretamente nas operações de crédito. Segundo Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as taxas médias no crédito livre às pessoas físicas superam 60% ao ano, patamar que não era observado desde 2017.
Com isso, o comprometimento mensal da renda com o Sistema Financeiro Nacional atingiu 29,3%, máxima da série histórica. Além disso, a inadimplência no crédito livre chegou a 6,9% em dezembro, alta relevante em 12 meses, o que indica deterioração da qualidade do endividamento.
Mesmo nesse cenário, o saldo de crédito às famílias segue em expansão. As operações livres somaram R$ 2,5 trilhões em dezembro, com crescimento anual de 13,2%, mostrando que o acesso ao crédito continua ativo, embora mais oneroso.
Cartão de crédito amplia a dívida das famílias
Entre as modalidades, o cartão de crédito tem papel central na dívida das famílias. Em 2025, o volume devido nessa linha avançou 17,1%. Para Bentes, esse crescimento não reflete estímulo ao consumo, mas a tentativa de fechar o orçamento mensal diante do desequilíbrio financeiro.
Relatos de consumidores reforçam esse padrão. O parcelamento no cartão aparece como alternativa para despesas essenciais, enquanto empréstimos adicionais surgem quando o limite se esgota. Nos cálculos da Tendências Consultoria, que incluem parcelamentos mais longos, o endividamento já alcança 54% da renda.
O encarecimento do juro e a redução dos prazos explicam esse nível elevado. Para ela, parte do alívio observado no passado com o programa Desenrola vem sendo substituída pelo avanço do consignado privado, que oferece taxas menores por conta do desconto em folha.
Dívida das famílias e o que pode mudar em 2026
A expectativa de cortes da Selic a partir de março abre espaço para alguma acomodação da dívida das famílias ao longo do ano. Bentes projeta melhora gradual do crédito e crescimento do varejo entre 3,5% e 4%, enquanto Alessandra destaca fatores adicionais, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil.
Ainda que o mercado de trabalho perca tração, ele segue positivo e mais formalizado, o que amplia o acesso ao crédito. A trajetória da dívida das famílias, portanto, dependerá do ritmo de queda dos juros e da capacidade de o sistema financeiro converter esse alívio em parcelas mais compatíveis com a renda.











