O orçamento da Organização das Nações Unidas (ONU) entrou em zona de risco, é o que sinaliza o secretário-geral António Guterres ao alertar para uma possível crise financeira da ONU por falta de recursos já a partir de julho. Em carta enviada aos 193 Estados-membros, que inclui o Brasil, ele afirmou que, sem o pagamento integral das contribuições ou mudanças nas regras fiscais, a instituição pode não conseguir executar suas despesas regulares.
O alerta ocorre em um contexto de acúmulo recorde de valores em atraso. Ao fim de 2025, as contribuições pendentes somaram US$ 1,568 bilhão. Por consequência, reduziram quase totalmente as reservas de caixa da organização, segundo dados internos da própria ONU.
Crise financeira da ONU e a inadimplência dos países
A inadimplência dos Estados-membros aparece como o principal vetor da crise financeira da ONU. Os Estados Unidos, tradicionalmente o maior contribuinte da organização, acumulam US$ 2,196 bilhões em débitos com o orçamento regular (verba base que mantém a ONU funcionando). Incluindo, além disso, valores referentes a 2025 e exercícios anteriores.
Além disso, o país deve US$ 1,8 bilhão ao orçamento separado das operações de paz. Embora Guterres evite citar países nominalmente, o cenário coincide com a política adotada pelo governo Donald Trump, que reduziu o envolvimento dos EUA com organismos multilaterais. E, além disso, cortou repasses a diferentes programas vinculados à ONU.
Regras fiscais ampliam a vulnerabilidade financeira
Além da inadimplência, a crise financeira da ONU expõe fragilidades estruturais do seu modelo fiscal. Uma das regras mais criticadas obriga à devolução de recursos não utilizados aos países-membros. Inclusive, mesmo quando os valores não foram efetivamente pagos, o que limita a gestão de caixa.
Segundo Guterres, esse desenho impede um planejamento financeiro compatível com a realidade.
“Não podemos executar orçamentos com recursos não arrecadados, nem devolver fundos que nunca recebemos”, escreveu o secretário-geral, ao defender mudanças nas normas fiscais da organização.
Consequências de um colapso financeiro da ONU
Se a crise financeira avança para um colapso na ONU, isso não significaria o encerramento imediato da organização. Porém, haveria perda progressiva de sua capacidade de operar como instância central de coordenação internacional. Funções básicas, como mediação diplomática, apoio administrativo a negociações multilaterais e coordenação entre países, ficariam comprometidas pela falta de recursos.
Além disso, o enfraquecimento operacional tende a reduzir a eficácia de tratados e normas internacionais que dependem da ONU para acompanhamento e implementação. Logo, ampliando assimetrias entre países e reduzindo a capacidade de coordenação coletiva.
Crise financeira da ONU e o alerta final aos países
No encerramento da carta, Guterres condicionou a estabilidade financeira da organização a duas alternativas claras: a quitação integral das contribuições pelos Estados-membros ou a revisão das regras fiscais internas.
Sem avanço em uma dessas frentes, a crise financeira da ONU deixa de ser apenas um alerta preventivo e passa a representar um risco concreto à entidade. Risco, inclusive, em um momento de crescentes tensões no cenário internacional.





