O dólar em queda reconfigura o debate econômico em Pequim nesta semana, após a moeda americana encerrar 2025 com a maior desvalorização anual em oito anos. Ao mesmo tempo, o yuan registrou seu melhor desempenho desde 2020, cenário que economistas classificam como favorável para rever os controles de capital do país.
Além disso, vozes influentes da academia e do mercado financeiro voltaram a defender publicamente a flexibilização da conta de capital. A participação do yuan nas reservas globais, contudo, permanece abaixo de 2%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o que expõe a distância em relação ao dólar.
Dólar em queda e a janela para reformas
O momento favorece avanços. “Quanto mais a China abrir sua conta de capital e permitir maior flexibilidade cambial, mais poderá atrair fluxos de entrada”, afirmou.
A combinação de depreciação do dólar e valorização do yuan cria condições para ampliar a conversibilidade da moeda, sem necessariamente provocar saídas expressivas. Ju Jiandong, professor da Universidade Tsinghua, classificou 2026 e 2027 como uma “janela estratégica” para essa abertura.
O debate ocorre após declarações de Xi Jinping, feitas em 2024 e divulgadas recentemente, nas quais o presidente detalhou o objetivo de tornar o yuan amplamente utilizado no comércio internacional, nas finanças globais e como moeda de reserva.
Liberalização cambial sob memória de 2015
Ainda assim, o histórico impõe cautela. Em 2015, uma tentativa de tornar o regime de câmbio flutuante administrado mais orientado pelo mercado resultou em fuga de capitais. As reservas internacionais caíram cerca de US$ 1 trilhão em dois anos, levando ao reforço dos controles.
Hoje, a conta de capital segue amplamente fechada. Investimentos transfronteiriços dependem de autorização, e programas como o Qualified Foreign Institutional Investor (QFII) operam como canais específicos para entrada de recursos. O regulador pretende simplificar esses mecanismos e ampliar políticas para investimentos transfronteiriços.
Pode haver espaço “na margem” para testar medidas graduais, como incentivar liquidação de commodities em yuan ou financiar projetos externos na moeda chinesa.
Dólar em queda e a estratégia de longo prazo
O pano de fundo é geopolítico. Economistas argumentam que o yuan estaria subvalorizado pela ótica da paridade do poder de compra, em parte devido à limitada liquidez global da moeda. Uma abertura maior poderia ampliar sua circulação externa.
Por outro lado, autoridades ainda temem saídas abruptas que pressionem o sistema financeiro. Portanto, qualquer ajuste tende a ocorrer de forma gradual, com foco em ampliar a integração sem comprometer a estabilidade.
No centro dessa equação, o dólar em queda funciona como catalisador de uma discussão que estava contida há quase uma década. Se a China avançar, o debate deixará de ser apenas cambial e passará a redefinir o equilíbrio financeiro internacional nos próximos anos.



