A projeção do dólar do Itaú BBA para o fim de 2026 foi fixada em R$ 5,40, patamar inferior à mediana do Boletim Focus, mesmo em um cenário de inflação acima da meta e juros elevados. O número sugere leitura própria sobre câmbio, política monetária e risco doméstico.
O Focus de 23 de fevereiro aponta R$ 5,45 para o mesmo horizonte, após recuo frente à estimativa anterior. Ainda assim, a casa projeta um real ligeiramente mais valorizado que o consenso. A diferença parece marginal, mas revela diagnóstico distinto sobre o equilíbrio entre fluxo cambial, expectativas de mercado e fundamentos fiscais, e é aí que o cenário começa a se separar.
Inflação acima da meta pressiona juros
No pano de fundo da projeção do dólar, o banco estima IPCA acumulado em 12 meses em torno de 4,4%, acima do centro da meta. O dado corrente reforça a cautela: o IPCA-15 de fevereiro subiu 0,84%, superando a expectativa de 0,57% apurada pela Reuters.
Apesar de sinais de moderação em alguns componentes, a inflação de serviços, sensível ao mercado de trabalho, segue pressionada. Esse quadro sustenta leitura mais conservadora para a curva de juros, ainda que parte do mercado já discuta cortes mais intensos adiante.
Selic projetada acima do consenso
O Itaú BBA trabalha com Selic de 12,75% ao fim de 2026. O Focus indica 12,13%. A diferença reforça a avaliação de que a taxa básica de juros permanecerá em terreno restritivo por mais tempo.
Condições financeiras apertadas, combinadas à perda de fôlego da demanda doméstica, devem resultar em crescimento moderado do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o banco. A investigação, contudo, esbarra em um ponto sensível: o papel das contas públicas nesse arranjo.
Fiscal no radar do câmbio
A instituição destaca desafios para o cumprimento das metas fiscais e a necessidade de medidas adicionais. Para o câmbio brasileiro, o tema não é secundário: resultado primário, trajetória da dívida e credibilidade do arcabouço influenciam o prêmio exigido nos ativos locais.
Assim, a projeção do dólar em R$ 5,40 combina inflação acima da meta, juros futuros elevados e atividade em desaceleração, mas sem ruptura nas variáveis externas. O diferencial está na ponderação entre risco fiscal e diferencial de juros.
No horizonte, o câmbio deve refletir menos o dado pontual e mais a coerência entre política fiscal e monetária. Se o ajuste das contas públicas não ganhar tração, o real pode testar patamares além do previsto. Caso contrário, a projeção do dólar tende a funcionar como teto implícito e não como piso.



