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Preço do cacau recua após pico histórico, mas ovos de Páscoa não devem ficar mais baratos

Mesmo com a forte queda recente no preço do cacau, ovos de Páscoa não devem ficar mais baratos em 2026. A produção começou quando a commodity estava muito mais cara, e custos logísticos e industriais ainda seguram o repasse ao consumidor.
Preço do cacau no mercado global
Queda recente no preço do cacau ainda não chegou aos produtos de chocolate vendidos na Páscoa. Imagem: Canva

Preço do cacau despencou no mercado global após um período de escassez severa, mas o consumidor que entrar em um supermercado nesta Páscoa dificilmente verá essa correção refletida nas prateleiras. A queda recente das commodities ocorre quando a indústria ainda trabalha com estoques e contratos firmados em um período de custos muito mais elevados.

A retração é expressiva. Depois de atingir médias superiores a US$ 10 mil por tonelada em 2025, a cotação do cacau recuou para cerca de US$ 3,6 mil no início de 2026. Ainda assim, o valor permanece acima da faixa que predominava antes da crise agrícola global, quando a commodity girava entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por tonelada. A aparente contradição começa a fazer sentido quando se observa como funciona a cadeia de produção do chocolate. O detalhe operacional, porém, aparece no calendário industrial da Páscoa.

Chocolate da Páscoa foi produzido com cacau muito mais caro

A fabricação dos ovos e outros produtos sazonais começa meses antes da venda. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), boa parte da produção destinada à Páscoa de 2026 teve início ainda em agosto do ano anterior, quando o preço do cacau rondava níveis muito superiores aos atuais.

Além da matéria-prima, o preço final envolve outros custos relevantes na cadeia do chocolate. A entidade cita itens como leite, taxa de câmbio, frete logístico e transporte em caminhões frigoríficos, necessários para preservar alimentos sensíveis ao calor. Esses fatores ampliam o intervalo entre a queda da commodity e qualquer ajuste no varejo. Para além do calendário industrial, porém, o episódio revelou mudanças silenciosas dentro das fábricas.

Indústria reformulou produtos após crise global do cacau

A escalada da commodity foi desencadeada por uma quebra de safra em regiões-chave da África Ocidental. Costa do Marfim e Gana, que concentram mais da metade da produção mundial, enfrentaram estiagens e irregularidades climáticas associadas ao El Niño.

O choque de oferta provocou forte reação no mercado internacional. O mercado está em pânico com a falta de disponibilidade de amêndoas e, por isso, os preços explodiram.

Para evitar repasses integrais ao consumidor ou interrupção de produção, empresas passaram a rever fórmulas. Parte do setor reduziu o uso de manteiga de cacau, substituindo o ingrediente por gorduras vegetais, como óleo de palmiste, e criando blends industriais para manter textura e sabor próximos do padrão tradicional. Essa adaptação da indústria ocorreu enquanto outra commodity do chocolate seguia direção oposta.

Açúcar entra em ciclo de oferta ampla no mercado global

O açúcar também registrou correção expressiva nos últimos meses. No mercado paulista, a saca gira perto de R$ 100, o menor nível em vários anos e cerca de 30% abaixo do observado um ano antes.

A queda reflete aumento de oferta global. Após o ciclo de preços elevados, produtores ampliaram área plantada em países como Brasil, Índia e Tailândia. Apenas o Centro-Sul brasileiro deve produzir mais de 40 milhões de toneladas na atual safra.

Pelo lado da demanda, o consumo de alimentos adoçados perde ritmo em economias desenvolvidas. Medicamentos para emagrecimento, conhecidos no mercado como “canetinhas”, começam a influenciar padrões de consumo de produtos açucarados.

Páscoa ainda aquecida revela aposta da indústria

Mesmo com custos ainda elevados na cadeia produtiva, a indústria aposta em vendas mais fortes neste ano. O setor contratou mais de 13 mil trabalhadores temporários para a Páscoa, acima da média recente de cerca de 10 mil vagas.

Além disso, as empresas ampliaram o portfólio. O mercado deve oferecer mais de 700 itens presenteáveis, número superior aos 611 produtos disponíveis no ano passado.

No pano de fundo, o preço do cacau sugere que o choque global da commodity pode estar entrando em nova fase. Com a recuperação de safras em países produtores e investimentos em manejo agrícola, analistas já observam sinais de reequilíbrio entre oferta e demanda, um ajuste que tende a aparecer primeiro nas bolsas de commodities e só depois, lentamente, nas prateleiras do consumidor.

Foto de Flávia Lifonsino

Flávia Lifonsino

Flávia Lifonsino é jornalista formada pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção jornalística e em conteúdos analíticos sobre negócios, investimentos e tecnologia aplicada às empresas, além de experiência em coberturas digitais e projetos editoriais.

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