A alta do diesel já impacta o escoamento da safra no Brasil, ao elevar o custo do frete e levar tradings a interromper negociações de soja no auge das exportações. O avanço recente do combustível ocorre em um momento de forte demanda logística, ampliando o risco nas operações comerciais.
O cenário se agravou após a elevação de cerca de 8% no preço do diesel nos primeiros dias de março, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Embora a Petrobras ainda não tivesse ajustado oficialmente seus valores naquele período, distribuidoras já repassavam custos maiores, antecipando pressões na cadeia.
Alta do diesel e frete no centro da operação
O transporte rodoviário concentra parte relevante do escoamento agrícola no país. De acordo com estudo da Universidade de São Paulo (USP), cerca de 55% da soja depende da frota nacional de caminhões para chegar aos portos, o que amplia a exposição ao custo do combustível.
Além disso, a alta do diesel se soma a um período de demanda elevada por transporte. Chuvas recentes aceleraram a colheita, concentrando volumes em curto intervalo e pressionando a infraestrutura. Além disso, em fevereiro, condições precárias de estradas também ampliaram prazos em algumas rotas, encarecendo ainda mais o frete agrícola.
Frete mais caro trava negociações no mercado de soja
Diante desse cenário, empresas reduziram a atuação no mercado interno e interromperam ofertas de compra, segundo especialistas e corretores. A avaliação predominante é que a alta recente do diesel elevou o risco nas operações. Sobretudo em contratos futuros, ao ampliar a incerteza sobre o custo do transporte.
Esse ambiente se intensificou após o reajuste anunciado pela Petrobras, que superou o efeito da desoneração tributária. O governo zerou PIS e Cofins, equivalente a R$ 0,32 por litro, e a estatal indicou adesão a um programa de subvenção no mesmo valor, ainda dependente de regulamentação da ANP.
Alta do diesel amplia risco competitivo global
A volatilidade também levanta preocupações sobre a posição do Brasil no comércio internacional. Como principal fornecedor de soja para a China neste período, o país depende de eficiência logística para manter competitividade.
Segundo Adriano Gomes, analista da AgRural, a ausência de previsibilidade no frete dificulta o planejamento das empresas. Ele alerta que, se o cenário persistir, podem surgir complicações logísticas mais amplas.
Nesse contexto, importadores podem avaliar alternativas como Estados Unidos ou Argentina, especialmente se os custos no Brasil continuarem pressionados. Paralelamente, transportadoras já discutem a adoção de taxas emergenciais, enquanto consideram insuficientes as medidas tributárias adotadas pelo governo.
A alta do preço do diesel reforça um desafio estrutural do agronegócio brasileiro: a dependência rodoviária. Sem avanço proporcional em ferrovias e hidrovias, o país segue exposto a oscilações do combustível, o que tende a influenciar margens, decisões comerciais e a competitividade global da soja brasileira nas próximas semanas.





