O número de casos de café adulterado identificados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) disparou em 2026 e ampliou o alerta sobre qualidade, contaminação e fraudes em um dos produtos mais consumidos pelos brasileiros.
Somente neste ano, o ministério confirmou 44 irregularidades em cafés torrados e moídos. O total já representa mais da metade dos 85 casos registrados em todo 2025.
O avanço das ocorrências pressiona a indústria em meio à alta do café nos supermercados e aumenta a preocupação sobre controle de qualidade, rastreabilidade e segurança alimentar.
O que o Mapa encontrou nos cafés apreendidos
As análises feitas pelo Mapa identificaram problemas que vão além do chamado “cafake”, termo usado para bebidas sabor café produzidas com resíduos e cascas.
As fiscalizações investigam:
- resíduos de agrotóxicos;
- contaminantes como ocratoxina;
- falhas de composição;
- irregularidades sanitárias;
- problemas industriais na produção.
Em 2025, o ministério realizou:
- 711 coletas de café torrado e moído;
- 54 análises de café em grão cru;
- 72 apreensões de café torrado;
- 78,4 mil quilos recolhidos do mercado.
No café cru, 13 amostras apresentaram irregularidades, o que levou à apreensão de 41,5 mil quilos de produtos.
Entre 2023 e 2026, as operações retiraram:
- 226 mil quilos de café torrado e moído;
- 85 mil quilos de café em grão cru.
O volume apreendido ampliou a pressão sobre a cadeia produtiva justamente em um momento de maior sensibilidade do consumidor com preços e qualidade.
Denúncias revelam dimensão maior das irregularidades
O dado que mais preocupa o setor envolve a taxa de confirmação das denúncias recebidas pelo ministério.
Segundo Helena Pan Rugeri, coordenadora-geral de operações fiscais do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal, 75,9% das denúncias analisadas apresentaram irregularidades efetivas.
Na prática:
- três em cada quatro denúncias resultaram em infrações confirmadas;
- parte das fiscalizações foi motivada pelo próprio setor privado;
- os indícios encontrados mostraram alta assertividade das denúncias.
O percentual indica que as irregularidades conseguem chegar ao mercado antes da ação das autoridades, mesmo com o aumento da fiscalização.
Em 2026, o Mapa informou ter realizado 943 coletas de produtos de origem vegetal. Desse total, 88 envolveram café torrado e moído.
O cenário amplia a pressão sobre fabricantes e torrefadoras porque desloca o problema do campo das fraudes isoladas para dúvidas mais amplas sobre controle industrial.
Café fake ganha repercussão, mas representa minoria dos casos
Apesar da repercussão recente nas redes sociais e nas operações de fiscalização, os chamados “cafés fake” representam parcela reduzida das ocorrências identificadas pelo ministério.
Segundo o Mapa, apenas três casos recentes envolveram produtos vendidos como bebida sabor café produzidos sem café efetivo na composição.
As empresas citadas foram:
- Master Blends Indústria de Alimentos Ltda;
- D M Alimentos Ltda, da marca Melissa;
- Jurerê Caffe Comércio de Alimentos Ltda, da marca Pingo Preto.
O dado muda o eixo da discussão sobre café adulterado no Brasil. A maior parte das irregularidades está ligada a contaminação, composição inadequada e falhas produtivas, não apenas às versões conhecidas como “cafake”.
Essa mudança aumenta a pressão reputacional sobre a indústria tradicional porque amplia a percepção de risco além das marcas já expostas em operações recentes.
Indústria tenta conter desgaste sobre qualidade do café
O avanço das apreensões mobilizou entidades do setor em seminário realizado pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), em Belo Horizonte.
O encontro reuniu representantes da indústria e autoridades para discutir medidas contra fraudes e irregularidades na cadeia cafeeira.
A Abic afirmou que operações integradas já começaram a reduzir problemas em alguns estados.
Segundo a entidade:
- uma operação no Rio de Janeiro apreendeu mais de 16 toneladas de café irregular;
- houve queda nas fraudes em menos de seis meses;
- o setor quer ampliar o modelo para outros estados.
Além disso, o Sindicato da Indústria de Café do Estado de Minas Gerais (Sindicafé-MG) afirmou que empresas associadas podem ser desfiliadas quando descumprem padrões produtivos.
A entidade reforçou que produtores afastados só retornam após comprovar adequações na fabricação.
Mesmo com o esforço das entidades, o avanço do café adulterado em 2026 amplia a tensão sobre fiscalização do Mapa e qualidade em um mercado que depende diretamente da confiança do consumidor.



