A alta do diesel avançou nas bombas em ritmo acima do esperado e já pressiona a cadeia de abastecimento no país. Entre 1º e 16 de março, o diesel S10 acumulou alta de 19,71%, segundo dados baseados em notas fiscais eletrônicas. O salto ocorreu mesmo após medidas fiscais adotadas para aliviar o custo ao consumidor.
Na primeira semana, o avanço havia sido menor, mas o ritmo ganhou força nos dias seguintes, indicando um descolamento entre política doméstica e dinâmica internacional. O fenômeno não ficou restrito ao diesel: gasolina comum, gasolina aditivada e diesel aditivado também subiram, enquanto o etanol recuou levemente. A leitura do mercado, contudo, aponta um fator mais profundo e menos visível.
A pressão não vem apenas do reajuste nas refinarias, mas da estrutura de formação de preços. O diesel responde mais a variáveis como petróleo Brent, taxa de câmbio e frete internacional do que a tributos. Isso reduz o alcance de medidas como a desoneração de PIS/Cofins, que já foi neutralizada pela nova escalada do petróleo.
Defasagem amplia tensão entre preço interno e externo
A diferença entre os preços domésticos e o mercado internacional abriu um novo foco de atenção. O diesel vendido no Brasil está cerca de 57% abaixo da paridade internacional, segundo a Abicom. Esse descompasso cria um desincentivo direto à importação, essencial para suprir cerca de 30% do consumo nacional.
O diesel importado chega ao país até R$ 2,50 acima do preço praticado pela Petrobras. Nesse cenário, empresas evitam fechar novos contratos, o que começa a afetar o fluxo de abastecimento. E há um ponto menos visível que começa a emergir.
Mercado à vista já enfrenta restrições silenciosas
Distribuidores e consultorias relatam dificuldades crescentes no atendimento de pedidos fora de contratos de longo prazo. Clientes do chamado mercado spot, como transportadoras e produtores rurais, já enfrentam negativas ou redução de volumes.
A deterioração é gradual, mas consistente. Há casos de contratos sendo parcialmente atendidos, indicando pressão na logística de distribuição e no acesso ao combustível. Esse ajuste ocorre antes mesmo de um eventual desequilíbrio mais amplo no abastecimento.
Política de preços trava ajuste e adia solução
Mesmo após reajustes recentes, os preços nas refinarias seguem abaixo do nível internacional. Esse cenário limita a entrada de novos carregamentos e transfere a pressão para o varejo. Refinarias privadas já reagiram com aumentos, enquanto a Petrobras mantém um intervalo que o mercado considera insuficiente.
Além disso, mudanças na estrutura do ICMS, com valor fixo por litro, reduziram o efeito de políticas emergenciais. A proposta de zerar o imposto na importação teria alcance restrito, já que incidiria sobre apenas parte do volume consumido.
E agora?
A alta do diesel deixa de ser apenas um tema de preço e passa a refletir um desequilíbrio estrutural entre oferta, política de preços e dependência externa. O mercado sinaliza que, sem alinhamento mais próximo à paridade, o fluxo de importação tende a enfraquecer ainda mais. Em um ambiente de petróleo elevado e câmbio pressionado, o risco deixa de ser apenas inflacionário e passa a ser operacionaln com efeitos diretos sobre transporte, agronegócio e logística nacional.





