A delação premiada de Maurício Camisotti no INSS levou a Polícia Federal (PF) a intimar 31 investigados no inquérito sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A colaboração mudou o rumo da investigação. A delação expôs como o esquema operava e quem participava dele.
Camisotti está preso desde 12 de setembro de 2025, durante a Operação Sem Desconto da Polícia Federal, Camisotti foi o primeiro a firmar acordo de colaboração e passou a detalhar como o esquema funcionava por dentro, elevando a pressão sobre operadores, intermediários e pessoas com ligação a estruturas públicas e políticas.
O avanço marca uma virada no caso. A investigação sobre fraude no INSS, que antes se baseava em rastros financeiros e documentos, passa agora a confrontar diretamente os citados com base em informações fornecidas por quem atuava no núcleo do esquema.
Delação de Camisotti acelera investigação e amplia alcance
A colaboração de Camisotti funciona como ponto de inflexão no inquérito. Ao admitir participação e indicar outros envolvidos, o empresário oferece à Polícia Federal caminhos mais diretos para identificar responsabilidades e testar versões.
Conforme publicado pelo SBT News, o efeito imediato foi a intimação de 31 pessoas. Entre os nomes estão personagens com ligação ao núcleo do esquema e à estrutura pública, como Romeu Carvalho Antunes, filho de Antonio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e apontado como um dos principais articuladores. Também foi intimado Tiago Schettini Batista, descrito como sócio oculto.
Segundo a matéria, a lista inclui ainda nomes ligados ao senador Weverton Rocha (PDT), como os ex-assessores Gustavo Marques Gaspar e Vanessa Barramacher, além de Adroaldo da Cunha Portal, ex-secretário executivo do Ministério da Previdência, e seu filho, Eduardo Silva Portal.
Também aparecem entre os intimados a publicitária Danielle Miranda Fonteneles, que atuou em campanhas do PT, e a lobista Roberta Luchsinger, apontada como amiga pessoal de “Lulinha”, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na prática, cada um desses investigados passa agora a responder a questionamentos baseados em informações fornecidas por quem operava o esquema por dentro, o que eleva o nível de pressão e risco dentro da investigação.
O que Camisotti revelou sobre o funcionamento da fraude
Na delação, Camisotti descreveu como o esquema atingia diretamente aposentados e pensionistas. Segundo as informações prestadas, beneficiários eram incluídos como filiados a associações sem consentimento.
Com uso de dados pessoais, assinaturas forjadas ou autorizações genéricas, esses aposentados passavam a ter mensalidades descontadas automaticamente dos benefícios pagos pelo INSS, muitas vezes sem identificar a origem dos débitos.
O empresário também detalhou a estrutura utilizada para viabilizar os descontos. De acordo com a apuração, ele controlava três entidades: a Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), a União dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Unsbras) e o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap).
Embora formalmente apresentadas como associações voltadas a aposentados, essas entidades tinham dirigentes ligados ao próprio grupo empresarial de Camisotti, incluindo funcionários e familiares de executivos. Essa estrutura permitia formalizar adesões sem validação efetiva e manter um fluxo contínuo de cobranças diretamente nos benefícios.
Como identificar descontos indevidos no INSS
A forma como o esquema operava levanta um alerta para aposentados e pensionistas. Descontos associativos aparecem diretamente no extrato de pagamento do benefício e podem passar despercebidos por longos períodos.
Para verificar, o beneficiário pode consultar o histórico de pagamentos no aplicativo ou site “Meu INSS”. Caso identifique cobranças não autorizadas, é possível solicitar a exclusão do desconto e registrar contestação junto ao próprio instituto.
Investigados passam a responder a acusações diretas
Com a delação, os investigados deixam de responder apenas a indícios. Agora, enfrentam acusações detalhadas feitas por um participante do esquema.
A investigação entra em fase de confronto de versões. A Polícia Federal cruza os depoimentos dos intimados com as informações fornecidas por Camisotti. Além disso, analisa documentos e movimentações financeiras já identificadas.
Se confirmadas, as declarações podem sustentar medidas mais duras. Entre elas estão novas operações policiais, quebras de sigilo e denúncias formais.
STF analisa validade do acordo de delação
Segundo apuração, o empresário já prestou depoimento e as informações foram encaminhadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por decidir sobre a homologação do acordo.
Por que o STF decide sobre a delação
A análise pelo STF ocorre quando há indícios de envolvimento de pessoas com foro privilegiado. Também acontece quando o caso atinge instâncias superiores. Nesses cenários, cabe ao Supremo verificar se o acordo seguiu os critérios legais.
A homologação permite que os dados apresentados pelo delator tenham efeito direto no andamento da investigação. Além disso, possibilita o uso formal das informações em processos judiciais.
Caso ganha dimensão política e institucional
Entre os 31 intimados estão assessores parlamentares, advogados, empresários, incluindo do setor financeiro, ex-servidores do INSS e da Caixa Econômica Federal, o que amplia o alcance da apuração. A presença de nomes ligados a estruturas políticas e administrativas indica que a investigação pode avançar para além do núcleo operacional.
O caso também é acompanhado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. O colegiado foi instalado em 20/08/2025 para investigar fraudes e descontos indevidos. É presidido pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG) e tem como relator o deputado Alfredo Gaspar (União-AL).
As investigações identificaram movimentações suspeitas envolvendo cerca de 108 empresas. Além disso, há análise de milhares de documentos e dezenas de quebras de sigilo aprovadas. A estimativa é que o esquema tenha desviado cerca de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
O que a delação de Camisotti pode desencadear
Com a fase de depoimentos em andamento e a delação sob análise no STF, a investigação entra em um momento decisivo.
O cruzamento entre relatos, documentos e fluxos financeiros deve definir o alcance real das fraudes. Como a colaboração parte de um operador central, cada confirmação pode abrir novas linhas de apuração.
Esse tipo de delação tende a gerar efeito em cadeia. Novos depoimentos podem surgir. A investigação pode avançar sobre estruturas ainda não mapeadas. Também há possibilidade de medidas como operações policiais, bloqueio de recursos e ampliação do número de investigados.
Nesse cenário, a delação de Camisotti não apenas acelera a investigação. Ela redefine o caso ao expor a estrutura do esquema e colocar sob pressão direta todos os nomes citados.





