O mercado de trabalho CLT no Brasil segue dominante mesmo diante do avanço das plataformas digitais. É o que aponta a nova edição do “Retratos da Sociedade Brasileira: visão da população sobre o mercado de trabalho”, uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada nesta sexta-feira (10/04).
Segundo o levantamento, 95% dos trabalhadores dizem estar satisfeitos com a ocupação atual, sendo que 70% se declaram muito satisfeitos. Esse nível elevado de contentamento ajuda a explicar outro movimento: a baixa mobilidade. Apenas um em cada cinco trabalhadores buscou um novo emprego recentemente.
Esse cenário cria um efeito direto no mercado: menos troca de vagas, menor rotatividade e uma dinâmica mais travada para novas contratações.
CLT ainda é vista como proteção no mercado de trabalho do Brasil, não como rigidez
Mesmo com o crescimento de alternativas como trabalho autônomo e plataformas digitais, o emprego formal continua sendo o modelo mais desejado.
Entre aqueles que procuraram novas oportunidades, 36,3% apontaram vagas com carteira assinada como a opção mais atrativa. O motivo não é apenas salário, mas o pacote completo: direitos trabalhistas, previsibilidade de renda e acesso à proteção social.
Na prática, isso mostra que a flexibilização das relações de trabalho não eliminou a busca por segurança — apenas ampliou as opções.
Esse comportamento também indica uma leitura pragmática do trabalhador: diante de incertezas econômicas, a estabilidade pesa mais do que a autonomia. Embora projetos para firmar vínculos empregatícios entre plataformas e trabalhadores tenham sido considerados, a medida foi derrubada e não levada em consideração.
Avanço dos aplicativos não muda lógica principal
As plataformas digitais, como aplicativos de entrega, como Ifood e 99foods, ou de transporte, como a Uber, aparecem no levantamento, mas em um papel secundário.
Cerca de 10,3% dos trabalhadores consideram esse tipo de atividade atrativa. No entanto, a maioria não vê essas ocupações como carreira principal. Apenas 30% dos interessados dizem enxergar esse tipo de trabalho como fonte central de renda.
O dado revela um limite claro para o crescimento da chamada gig economy (economia baseada em trabalhos não formais) no Brasil: ela funciona mais como complemento do que como uma substituição do modelo CLT no mercado de trabalho do Brasil
Na prática, aplicativos como transporte e entrega entram como estratégia de renda extra, especialmente em momentos de transição ou aperto financeiro.
Estabilidade explica baixa movimentação no mercado
Outro ponto relevante do estudo é o tempo de permanência no emprego. Mais de 65% dos trabalhadores estão na mesma ocupação há mais de dois anos, sendo que quase metade permanece por mais de cinco anos.
Esse nível de estabilidade não é comum em economias com alta rotatividade e indica um mercado mais acomodado.
Além disso, a disposição para buscar novas oportunidades cai conforme o tempo no emprego aumenta. Entre quem está há mais de cinco anos na mesma função, apenas 9% procuraram outra vaga recentemente.
Esse comportamento reforça um padrão: quanto maior o vínculo, menor o apetite por risco.
O que isso muda na economia
A preferência pela CLT não é apenas uma escolha individual — ela molda o funcionamento do mercado de trabalho.
Com menos mobilidade, empresas enfrentam maior dificuldade para atrair talentos sem oferecer ganhos reais de salário ou benefícios. Ao mesmo tempo, trabalhadores tendem a permanecer mais tempo nas mesmas posições, reduzindo a pressão por mudanças.
Isso pode ter dois efeitos simultâneos:
- Estabilidade maior para o trabalhador
- Menor dinamismo na economia
Além disso, o dado de que 20% dos trabalhadores não encontraram oportunidades atrativas indica um desalinhamento entre oferta e expectativa. Portanto, um sinal de que o problema não está apenas na quantidade de vagas, mas na qualidade delas.
Preferência por CLT revela o conservadorismo do mercado de trabalho brasileiro
O levantamento da CNI desmonta a ideia de que o Brasil vive uma transição acelerada para um modelo de trabalho mais flexível.
Na prática, o que emerge é um trabalhador mais cauteloso, que valoriza segurança, evita riscos e usa alternativas como aplicativos de forma complementar.
Por fim, esse comportamento ajuda a explicar por que, mesmo com novas formas de trabalho ganhando espaço, o emprego com carteira assinada continua sendo o centro do mercado.





