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Locação de motos dispara e revela falha na economia de trabalhos por aplicativo no Brasil

A locação de motos no Brasil cresceu 1.564% em cinco anos, impulsionada pela gig economy. A alta expõe a falta de oferta estruturada para atender entregadores e abre espaço para novos modelos de negócio no setor.
Entregadores com mochilas de delivery ao lado de motocicletas usadas em serviço de locação
Empresas como Byker avançam na locação de motos para suprir falta de veículos na economia de aplicativos do Brasil (Foto: Divulgação/Byker)

A locação de motos no Brasil deixou de ser um nicho e passou a refletir uma falha estrutural da economia de aplicativos: a demanda por veículos cresceu muito mais rápido do que a oferta organizada. O resultado é um mercado em expansão acelerada, mas ainda desorganizado. E que, portanto, abre espaço para novos modelos de negócio.

Dados do Anuário Brasileiro do Setor de Locação 2026, da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA), mostram que a frota de motocicletas para aluguel saltou de 7.856 unidades em 2021 para 130.751 em 2026. O crescimento de 1.564% em cinco anos não indica apenas expansão, revela uma mudança na forma como o trabalho e o acesso a ativos estão sendo estruturados no país.

Na prática, o avanço dos aplicativos de entrega criou uma nova dependência: milhares de trabalhadores precisam de motos para gerar renda, mas nem todos têm acesso ao crédito ou capital para comprar um veículo. Esse descompasso entre demanda e acesso é o ponto de partida de um novo mercado.

Crescimento da gig economy pressiona locação de motos no Brasil

A chamada gig economy, baseada em trabalhos sob demanda, mudou a lógica de entrada no mercado de trabalho. Hoje, para atuar como entregador, o principal requisito não é qualificação formal — é ter um veículo disponível.

Isso desloca o problema do emprego para o acesso a ativos.

Sem moto, não há renda. E, para uma parcela relevante desses trabalhadores, comprar um veículo próprio não é viável, seja por restrição de crédito, seja pelo risco financeiro.

Esse cenário transforma a locação de motos em uma peça central da engrenagem dos aplicativos no Brasil. Portanto, mais do que conveniência, ela passa a ser infraestrutura de trabalho.

Falta de oferta estruturada vira oportunidade de negócio

Apesar do crescimento acelerado, o mercado ainda enfrenta limitações importantes. A oferta de locação não acompanhou a velocidade da demanda, especialmente em grandes centros urbanos.

Foi justamente esse gargalo que motivou a criação da Byker, startup lançada em 2025. A empresa estruturou um modelo digital de locação de motos focado em atender entregadores no Brasil, com gestão centralizada e operação sem necessidade de estrutura física.

A proposta surge como resposta direta a uma falha de mercado: existe demanda constante por motos, mas falta organização e escala na oferta.

Hoje, a empresa opera com 35 motocicletas e três franqueados no Rio de Janeiro, mas planeja ampliar rapidamente essa base para 300 veículos e 30 franqueados ainda este ano. Em São Paulo, a expectativa inicial é colocar entre 100 e 150 motos em circulação.

Modelo tenta transformar escassez em escala

O avanço de modelos como o da Byker não muda a natureza da locação de motos no Brasil, mas altera quem consegue explorar esse mercado. O que antes ficava concentrado em grandes empresas passa a ser oferecido como investimento acessível a pessoas físicas.

Nesse formato, investidores compram motos e delegam toda a operação, enquanto a empresa cuida da gestão, contratos e manutenção. O objetivo é escalar rapidamente a oferta para acompanhar a demanda dos aplicativos.

Os números ajudam a entender a lógica. Um investimento inicial de cerca de R$ 79 mil, suficiente para três motos, pode gerar retorno mensal estimado de R$ 3 mil, com prazo de recuperação entre 14 e 19 meses, segundo a empresa.

Essa estrutura tenta resolver dois problemas ao mesmo tempo: amplia a oferta de motos e viabiliza a entrada de novos investidores no setor.

Expansão depende de um mercado ainda instável

Apesar do crescimento expressivo, o mercado carrega incertezas. A dependência da gig economy significa que a demanda está atrelada à dinâmica dos aplicativos, que podem mudar regras, tarifas ou condições de trabalho.

Além disso, a concentração em um único perfil de cliente — os entregadores — aumenta a exposição a oscilações desse segmento.

Por outro lado, a expansão acelerada indica que o modelo encontra espaço real no mercado. A própria Byker projeta faturar R$ 2 milhões em 2026, após já ter alcançado R$ 150 mil em receita e captar R$ 400 mil com investidores.

O que está por trás da locação de motos no Brasil

No fundo, o crescimento da locação de motos não é apenas uma tendência de negócios. É, inclusive, um reflexo direto de como o trabalho informal está sendo reorganizado no Brasil.

A renda passa a depender menos de vínculos formais e mais do acesso a ferramentas de trabalho. Nesse contexto, motos deixam de ser bens de consumo e se tornam ativos produtivos.

A explosão desse mercado mostra que o país ainda está ajustando sua infraestrutura a essa nova realidade. E, enquanto esse ajuste não acontece, surgem empresas tentando ocupar esse espaço. Transformando, assim, um gargalo em oportunidade de escala.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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