O crediário Casas Bahia voltou a ocupar o centro da estratégia da varejista e levou a empresa a registrar R$ 10,2 bilhões em vendas no último trimestre de 2025, maior volume da história para o período. O avanço ocorre mesmo com a inadimplência atingindo 73,7 milhões de brasileiros, evidenciando como o crédito próprio segue sendo decisivo para sustentar o consumo.
A retomada do crediário não é apenas um bom resultado pontual. Ela sinaliza uma mudança clara no modelo de operação da empresa, que volta a apostar em um dos pilares que construiu sua presença no varejo popular: o financiamento direto ao consumidor.
Ao ampliar o uso do crédito próprio, a Casas Bahia cria uma forma de manter o fluxo de vendas mesmo quando o acesso ao crédito bancário se torna mais restrito para parte da população.
Crediário volta a ser motor de crescimento para Casas Bahia
O desempenho reforça o reposicionamento do crediário Casas Bahia como principal alavanca comercial. A empresa voltou a explorar com mais intensidade o modelo que historicamente popularizou — o parcelamento direto, acessível a consumidores com menor acesso ao sistema financeiro tradicional.
A estratégia se apoia em dois pilares: capilaridade física e integração logística. A rede mantém cerca de 1.000 lojas em aproximadamente 500 municípios, distribuídas por 23 estados, o que amplia o alcance do crédito em regiões onde outras formas de financiamento são mais limitadas.
Segundo a companhia, essa presença territorial permite identificar mercados onde o crediário tem maior aderência e, a partir disso, expandir a base de clientes.
Crédito próprio como diferencial competitivo
Diferente de outras varejistas que dependem majoritariamente de bancos e financeiras, a Casas Bahia mantém o crediário como parte da própria operação. Isso dá maior controle sobre concessão, relacionamento com o cliente e estímulo ao consumo.
Na prática, o crediário funciona como uma porta de entrada para compras que, sem parcelamento, dificilmente aconteceriam. Esse modelo ganha ainda mais relevância em um cenário em que o orçamento das famílias está pressionado.
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que 29% da renda mensal das famílias brasileiras já está comprometida com dívidas. Trata-se, portanto, do maior nível em duas décadas. Ainda assim, o consumo financiado continua sendo uma alternativa viável para aquisição de bens duráveis.
Resultado vem após prejuízo bilionário
O avanço do crediário também ajuda a reequilibrar a narrativa financeira da Casas Bahia após um ano desafiador. Em 2025, o grupo registrou prejuízo de R$ 2,98 bilhões, impactado principalmente por um ajuste contábil de R$ 1,45 bilhão relacionado a ativos fiscais.
Apesar disso, a companhia afirma que o momento atual é de recuperação. O CEO Renato Franklin destacou recentemente que a empresa opera com alavancagem de 0,4 vez, nível considerado baixo para o setor de varejo, onde o indicador costuma variar entre 2 e 3,5 vezes.
Essa diferença indica maior capacidade de sustentar a expansão do crédito sem comprometer a estrutura financeira no curto prazo.
Expansão do crediário ainda tem espaço
A diretoria de Soluções Financeiras da Casas Bahia vê potencial para ampliar ainda mais o uso do crediário. A leitura interna é que há espaço para crescer tanto na base de clientes quanto no volume financiado.
Esse movimento depende diretamente da capacidade da empresa de equilibrar concessão de crédito e risco de inadimplência. Inclusive, um ponto sensível em um país onde a inadimplência já atinge 81,7 milhões de pessoas em 2026, o maior nível em 14 anos.
Mesmo assim, a companhia aposta que a proximidade com o cliente e o conhecimento do perfil de consumo ajudam a mitigar riscos.
Incentivo interno e foco em performance
Como parte da estratégia, a Casas Bahia também busca alinhar a força de vendas ao novo momento do crediário. Um exemplo é a iniciativa que prevê a entrega de imóveis de até R$ 200 mil para os 15 vendedores e gerentes com melhor desempenho no trimestre.
A ação surgiu após uma consulta interna com funcionários, que identificou a casa própria como principal aspiração. O programa conecta incentivo financeiro com metas comerciais, reforçando o foco na expansão das vendas.
O que muda no modelo da Casas Bahia
O resultado da Casas Bahia no quarto trimestre de 2025 indica que o crediário deixou de ser apenas uma herança do passado para se tornar novamente um eixo central do negócio. Em um ambiente de crédito restrito e renda pressionada, financiar o consumo passa a ser não só uma vantagem competitiva, mas uma necessidade estratégica.
Mais do que vender produtos, a Casas Bahia volta a vender acesso. E isso redefine seu papel no varejo brasileiro.





