Anunciada nesta segunda-feira (20/04), a venda da Serra Verde, única mineradora brasileira de terras raras, por US$ 2,8 bilhões, levanta um alerta direto: o Brasil pode estar perdendo controle sobre suas terras raras, atualmente um dos recursos mais estratégicos da economia global. Na prática, o comando sobre a produção de terras raras passa a ser definido fora do país, em um momento em que esses minerais são centrais para tecnologia, energia e defesa.
As chamadas terras raras são um grupo de minerais essenciais para tecnologias modernas, apesar do nome, não são necessariamente escassas, mas difíceis de processar.
A Serra Verde, localizada em Goiás, abriga a mina Pela Ema, um dos raros ativos fora da Ásia capazes de produzir em escala terras raras pesadas, como disprósio e térbio. Esses elementos são essenciais para a fabricação de ímãs de alto desempenho usados em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.
Esse tipo de movimento não é comum em setores estratégicos. Em países que tratam minerais críticos como prioridade nacional, o controle desses ativos costuma ser preservado ou fortemente regulado.
Ao assumir o controle da operação, a USA Rare Earth passa a integrar esse ativo a uma estratégia mais ampla, que inclui mineração, processamento e produção industrial nos Estados Unidos. Com isso, o Brasil deixa de ser o centro decisório sobre um recurso que possui em seu território.
O Brasil ainda produz terras raras, mas não mais decide o destino
Perder controle, nesse caso, não significa que a mina deixe de operar no Brasil. A produção continua acontecendo no país, com empregos e arrecadação. A diferença, porém, está em quem toma as decisões estratégicas.
Na prática, USA Rare Earth passa a decidir quanto produzir e em que ritmo, para quais países vender, se prioriza abastecer a indústria americana ou outros mercados. E, além disso, onde será feito o processamento e a fabricação dos produtos finais
Mesmo sendo dono do recurso natural, o país deixa de ter poder para direcionar esse minério para desenvolver sua própria indústria ou negociar condições mais favoráveis no mercado global.
Um exemplo direto: se o Brasil quisesse usar essas terras raras para atrair fábricas de baterias, carros elétricos ou equipamentos tecnológicos, teria menos margem para fazer isso, porque o destino da produção já está definido por uma empresa e por contratos externos.
Ou seja, o recurso continua no território brasileiro, mas as decisões sobre como ele será usado passam a ser tomadas fora do país.
Contrato de longo prazo limita decisões
Um dos pontos mais sensíveis da operação de terras raras do Brasil é o acordo de fornecimento firmado por 15 anos. Tal acordo prevê a entrega de 100% da produção inicial da mina a uma estrutura financiada pelo governo dos Estados Unidos e por investidores privados.
Na prática, isso direciona o destino desses minerais desde a origem e reduz a margem de decisão sobre para onde essa produção poderia ser enviada.
Esse tipo de contrato garante previsibilidade financeira, mas também restringe alternativas estratégicas em um mercado que tende a se tornar cada vez mais disputado.
Brasil mantém o recurso, mas não o poder
O caso da Serra Verde reforça um padrão recorrente na economia brasileira: o país possui recursos naturais relevantes, mas captura apenas uma parte limitada do valor gerado por eles.
No mercado de terras raras, a maior parte do valor econômico está nas etapas de refino, separação química e fabricação de componentes industriais. Essas fases concentram tecnologia, inovação e margens mais elevadas.
Por falta de infraestrutura para controlar essas etapas, o Brasil permanece como um grande fornecedor de terras raras e outras matérias-primas. Porém, nunca pode usufluir de todo o potencial desses recursos, enquanto o valor mais alto se desloca para outros países.
Disputa global pressiona o controle
A venda ocorre em meio a uma disputa crescente entre os Estados Unidos e China pelo domínio das cadeias de suprimento de terras raras.
A China concentra grande parte do processamento global desses minerais, o que levou países ocidentais a buscar novas fontes de abastecimento fora da Ásia. Hoje, a China responde por cerca de 60% da produção global de terras raras e mais de 80% do processamento, segundo dados de órgãos internacionais como o USGS. Esse domínio é justamente o que levou países como os Estados Unidos a buscar novas fontes fora da Ásia.
A aquisição da Serra Verde se encaixa diretamente nessa estratégia. Para os Estados Unidos, representa acesso a um ativo raro e estratégico. Já para o Brasil, significa entrar nesse jogo de terras raras em escala global, porém, com menor capacidade de influência.
O que está em jogo para o Brasil com as terras raras
O impacto mais relevante na venda da Serra Verde e sua produção de terras raras não está apenas na mineração, mas no que o Brasil deixa de construir a partir dela.
Sem controle sobre ativos estratégicos e sem avanço nas etapas industriais, o país reduz sua capacidade de:
- Desenvolver tecnologia própria;
- Atrair indústria de maior valor agregado;
- Gerar empregos mais qualificados;
- Ampliar sua participação em setores de crescimento global.
Isso limita o potencial de crescimento econômico no longo prazo.
Por que isso importa agora
As terras raras deixaram de ser apenas um insumo industrial e passaram a definir poder econômico e tecnológico, já que estão na base de setores como carros elétricos, energia renovável e equipamentos estratégicos.
Nesse cenário, a venda da Serra Verde significa que o Brasil continua como uma potência em terras raras, mas abre mão de decidir como ela será usada em um momento em que esses minerais ganham valor global.
O efeito é direto: o país mantém a produção, mas reduz sua capacidade de transformar essa riqueza em indústria, tecnologia e crescimento, repetindo um modelo em que exporta recurso e importa valor.





