Por que o shopping está ficando vazio no Brasil e o online cresce

O avanço do online reduz o papel dos shoppings no Brasil e muda o consumo. Entenda as causas, os impactos no varejo e o que isso muda para o consumidor.
Movimento de consumidores em shopping center com lojas e fluxo de pessoas circulando
Queda no fluxo de visitantes em shoppings reflete mudança no consumo, com avanço das compras online no Brasil (Foto: Reprodução)

Ir ao shopping já não é mais o padrão de compra do brasileiro. O movimento nos shoppings está diminuindo — e isso já aparece na forma como o brasileiro compra. Com crédito mais caro e mais opções na internet, o varejo físico encolhe — e isso afeta diretamente preços, lojas e a experiência de compra.

Os números confirmam essa virada. A participação das vendas online de celulares saltou de 25% em 2020 para 45% atualmente, enquanto o fluxo de visitantes em shoppings caiu 6,2% entre 2019 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). Com menos pessoas circulando, a conversão de vendas no ambiente físico também diminui.

Na prática, isso significa corredores menos movimentados, vitrines com menor circulação de pessoas e mais dificuldade para transformar visitas em vendas — um cenário diferente do observado antes da pandemia.

Compras online superam varejo físico no Brasil

O comércio eletrônico consolidou essa mudança ao ultrapassar os shoppings em faturamento. No último ano, as compras online atingiram R$ 235,5 bilhões, com crescimento de 15,3% no Brasil, e acumulam alta real de 88% desde 2019. Mais do que crescer, o digital passou a resolver problemas práticos do consumidor, como acesso a mais opções, comparação imediata de preços e eliminação de custos indiretos.

Esse avanço fica mais claro na comparação com o varejo físico: enquanto o comércio online acumulou crescimento real de 88% desde 2019, as vendas reais em shoppings recuaram cerca de 25% no mesmo período, já descontada a inflação.

Esse conjunto torna o online mais competitivo mesmo quando o preço do produto é semelhante. Custos com transporte, estacionamento e alimentação deixam de fazer parte da decisão, o que favorece a compra digital em um cenário de renda pressionada.

Juros e endividamento aceleram a migração

O ambiente econômico reforça essa tendência. Com juros elevados e alto nível de endividamento, o consumo de bens duráveis perde força, já que depende mais de crédito. Isso afeta diretamente os shoppings, que concentram esse tipo de produto.

Diante desse cenário, o consumidor se torna mais seletivo. Ele pesquisa mais, compara condições e evita compras por impulso, o que desloca parte relevante da demanda do Brasil para o ambiente de compras online. Segundo a CNC, esse efeito é mais intenso no varejo de shopping do que em outros segmentos.

Lojas físicas buscam estratégias para melhorar desempenho

Apesar das dificuldades, empresas começaram a ajustar suas operações a esse novo contexto. A Allied Tecnologia, responsável por operar a maior parte das lojas Samsung no Brasil, reduziu sua rede de 180 para 95 unidades desde 2020, acompanhando a queda de fluxo nos shoppings e a migração das vendas para o digital.

Ao mesmo tempo, o desempenho das lojas remanescentes aumentou, especialmente em períodos festivos. O faturamento médio mensal por unidade passou de cerca de R$ 200 mil para R$ 564 mil, indicando uma operação mais concentrada e eficiente. Em vez de expandir presença, o varejo físico passa a priorizar pontos com maior retorno, ajustando custos e elevando produtividade.

Esse movimento mostra que o modelo não desaparece, mas muda de escala e função, deixando de depender do volume de lojas para buscar eficiência por unidade. As consequências imediatas disso, porém, são menos postos de trabalho para vendedores e outros tipos de profissionais do varejo.

Com aumento das compras online, shoppings buscam novo papel

Com menos fluxo, os shoppings tentam se reposicionar frente ao aumento das compras online no Brasil. A estratégia tem sido ampliar áreas de alimentação, serviços e entretenimento, buscando transformar o espaço em destino de experiência e não apenas de compra.

Ainda assim, o modelo enfrenta desafios. O avanço do streaming reduziu o público dos cinemas, uma das principais âncoras desses empreendimentos. O número de espectadores caiu 36% desde 2019, segundo a Ancine, diminuindo a capacidade de atração de visitantes.

Essa perda de relevância reforça a necessidade de adaptação, já que parte da jornada de consumo migrou de forma definitiva para o digital.

O que muda para o consumidor

Para o consumidor, a mudança já é prática. O shopping deixa de ser o principal canal de compra e passa a ter papel complementar frente ao comércio eletrônico. A decisão começa no digital, onde preço e conveniência pesam mais, e só em alguns casos termina na loja física.

Esse novo padrão de compras online no Brasil aumenta o controle sobre o gasto e reduz gastos por impulso. Ao mesmo tempo, pressiona o varejo físico a se reinventar para manter relevância em um ambiente cada vez mais competitivo.

Na prática, isso pode significar menos lojas físicas disponíveis, mudanças no preço final dos produtos e um varejo cada vez mais concentrado no ambiente digital.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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