A investigação da JBS nos Estados Unidos (EUA) deixou de ser apenas uma apuração concorrencial e passou a integrar a disputa econômica e política do governo Donald Trump contra empresas estrangeiras que dominam parte do abastecimento de carne bovina no país.
O Departamento de Justiça dos EUA prometeu pagar recompensas milionárias a quem apresentar provas sobre possíveis práticas ilegais no setor. A ofensiva ocorre enquanto os americanos enfrentam preços recordes da carne e o menor rebanho bovino em quase 75 anos.
A pressão sobre os frigoríficos brasileiros acontece em um momento crítico para a cadeia global de proteína. O mercado americano sofre com seca prolongada, custos elevados e queda da oferta de gado, fatores que agravaram a inflação dos alimentos.
Crise do gado nos EUA virou combustível para ofensiva contra frigoríficos
O governo americano investiga a JBS, a National Beef, controlada pela Marfrig nos EUA, além das gigantes Tyson Foods e Cargill, por suspeitas de práticas anticoncorrenciais no mercado de carne bovina.
Segundo o Departamento de Justiça, as quatro empresas passaram de cerca de um terço das compras nacionais de gado, entre 1980 e 1990, para mais de 80% atualmente.
O avanço da concentração ocorreu enquanto o rebanho bovino americano caiu para o menor nível desde os anos 1950.
Entre os fatores que pressionaram o setor estão:
- seca prolongada nos EUA;
- aumento do custo da alimentação animal;
- redução de rebanhos pelos pecuaristas;
- suspensão de importações de gado mexicano;
- demanda firme por carne bovina.
A combinação reduziu a oferta de animais para abate e elevou os preços pagos pelos frigoríficos.
Mesmo sendo grandes produtores, os EUA dependem de importações para equilibrar o consumo doméstico. O Brasil ocupa posição estratégica nesse abastecimento.
Trump transformou preço da carne em pauta política
Donald Trump passou a usar a alta da carne como argumento político diante da insatisfação crescente de consumidores e pecuaristas americanos.
O presidente acusou frigoríficos de elevarem preços “por meio de conluio ilícito” e associou tarifas comerciais ao fortalecimento dos produtores locais.
A Casa Branca também endureceu o discurso contra grupos estrangeiros no setor de proteína animal.
A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, afirmou que o controle de parte relevante do mercado por empresas brasileiras representa ameaça à segurança alimentar americana.
Ela citou:
- corrupção internacional;
- denúncias de cartel;
- trabalho análogo à escravidão;
- impacto sobre pecuaristas independentes.
O discurso amplia a tensão comercial entre Washington e empresas brasileiras justamente após os EUA aplicarem tarifa de 50% sobre diversos produtos exportados pelo Brasil, incluindo carne.
O conselheiro de Trump, Peter Navarro, elevou ainda mais o tom ao afirmar que o lobby da carne brasileira teria pressionado a Casa Branca após o tarifaço.
A retórica fortalece a narrativa nacionalista de Donald Trump em um setor sensível para inflação e consumo interno.
Investigação da JBS nos EUA amplia risco reputacional para frigoríficos brasileiros
A ofensiva americana acontece enquanto a JBS enfrenta novos questionamentos também no Brasil. No fim de abril, o Ministério Público do Trabalho do Pará pediu condenação mínima de R$ 118 milhões contra a companhia por suposto trabalho análogo à escravidão na cadeia pecuária.
Na época, a empresa informou que ainda não havia sido notificada sobre as ações. Nos EUA, a pressão regulatória ocorre em paralelo ao fechamento de unidades do setor. Em dezembro, a JBS anunciou o encerramento permanente de uma fábrica nos arredores de Los Angeles.
A Tyson Foods também fechou uma grande planta em Nebraska anteriormente. Os movimentos refletem a deterioração da oferta de gado e o aumento dos custos operacionais.
A investigação da JBS nos EUA ainda pode gerar impactos mais amplos sobre:
- exportações brasileiras de carne;
- expansão internacional dos frigoríficos;
- relação comercial Brasil-EUA;
- percepção de risco dos investidores;
- pressão regulatória global.
A Marfrig afirmou que respeita as leis concorrenciais americanas e destacou que a National Beef possui participação de cerca de 700 produtores locais, que detêm aproximadamente 18% do capital da companhia.
Pecuaristas pressionam Trump enquanto carne segue cara nos EUA
A crise também expôs um conflito entre Donald Trump e pecuaristas americanos. Produtores rurais criticaram o presidente após ele sugerir ampliar importações de carne da Argentina para reduzir preços internos.
Os pecuaristas interpretaram a proposta como ameaça ao setor em um momento de valorização recorde do gado americano. Trump respondeu afirmando que os produtores só atravessam fase favorável graças às tarifas impostas contra países exportadores, especialmente o Brasil.
O embate mostra como a carne bovina virou tema central da disputa econômica nos EUA. Com inflação persistente nos alimentos e escassez histórica de gado, Washington passou a tratar frigoríficos estrangeiros não apenas como agentes econômicos, mas como peças estratégicas na segurança alimentar americana.
A investigação da JBS nos EUA ganhou dimensão muito maior do que um caso concorrencial e passou a refletir a nova guerra comercial travada em torno do alimento mais sensível do mercado americano.



