O resultado da M. Dias Branco no 1T26, divulgado na quinta-feira (07/05), após o fechamento do mercado, mostrou uma companhia mais eficiente em meio ao consumo pressionado. O lucro líquido cresceu 53,2%, para R$ 106,3 milhões, enquanto a receita avançou apenas 0,4%, para R$ 2,2 bilhões.
Antes do anúncio, as ações da M. Dias Branco (MDIA3) fecharam a R$ 24,64, segundo tela do Google Finanças enviada à reportagem, acumulando alta de 4,99% nos últimos cinco dias. O movimento sugeria maior apetite do mercado pelo papel antes do balanço, embora a valorização não possa ser atribuída apenas à expectativa pelos resultados.
O resultado interessa ao mercado porque mostra uma empresa capaz de ampliar lucro em um cenário de consumo fraco, mas ainda deixa em aberto se a melhora de margem será suficiente para acelerar a receita nos próximos trimestres.
A diferença entre lucro forte e receita quase estável resume o trimestre. A dona de marcas como Piraquê, Jasmine e Frontera vendeu mais, reduziu custos, ganhou participação em categorias-chave e acelerou frentes de maior margem, como saudáveis, snacks e Food Service.
O ponto central não está apenas no avanço do lucro. A M. Dias Branco vendeu 407,5 mil toneladas, alta de 3,4%, mas o preço médio caiu 2,9%. Isso mostra que a melhora veio menos de demanda aquecida e mais de execução comercial, alívio de matérias-primas e mudança de portfólio.
Lucro cresce mais que receita e mostra recuperação de margem
O lucro da M. Dias Branco avançou em ritmo muito superior ao da receita. O EBITDA somou R$ 195,9 milhões, alta de 21,8%, com margem EBITDA de 8,8%, ganho de 1,5 ponto percentual ante o primeiro trimestre de 2025.
Os principais números do 1T26 mostram essa combinação:
- Lucro líquido: R$ 106,3 milhões, alta de 53,2%;
- Receita líquida: R$ 2,2 bilhões, avanço de 0,4%;
- EBITDA: R$ 195,9 milhões, crescimento de 21,8%;
- Margem EBITDA: 8,8%, ganho de 1,5 ponto percentual;
- Volume vendido: 407,5 mil toneladas, alta de 3,4%;
- Preço médio: queda de 2,9%.
A explicação está na margem. O custo dos produtos vendidos caiu 1,5%, mesmo com volume maior, refletindo principalmente a redução de 5% nos custos de matérias-primas. Em um setor sensível a trigo, óleo de palma, câmbio e embalagens, esse alívio teve efeito direto sobre o resultado.
A margem bruta subiu para 32,4%, ante 30,9% no 1T25. Segundo a companhia, os custos variáveis recuaram de R$ 3,00 por quilo no 4T25 para R$ 2,70 por quilo no 1T26. Esse movimento ajudou a transformar volume em lucro, mesmo sem forte expansão de receita.
O contraponto é relevante. A receita líquida praticamente andou de lado porque o preço médio caiu. Assim, o trimestre positivo não veio de uma aceleração ampla do consumo, mas de eficiência, disciplina comercial e categorias com melhor contribuição de margem.
Volume maior e ganho de mercado mostram execução em cenário difícil
A leitura de Fábio Cefaly, diretor executivo de Novos Negócios e Relações com Investidores da M. Dias Branco, reforça que o resultado veio em um ambiente desfavorável para consumo.
“Nosso negócio cresceu, mesmo diante de um contexto com retração de consumo, famílias endividadas, queda na confiança dos consumidores e os varejistas mais conservadores na hora das compras”, disse o executivo.
A fala ajuda a dimensionar o trimestre. A companhia não apresentou lucro maior em um mercado aquecido. O avanço ocorreu em um cenário de consumidor mais seletivo, varejo cauteloso e pressão sobre alimentos básicos, o que aumenta o peso da melhora de margem e da execução comercial.
Ainda assim, a empresa informou que a receita líquida cresceu pelo quinto trimestre consecutivo. O dado suaviza a leitura negativa da receita quase estável, porque mostra continuidade de expansão em um setor no qual os mercados de biscoitos e massas tiveram retração de volumes e unidades vendidas.
A companhia também ganhou espaço em categorias relevantes:
- Biscoitos: ganho de 1,9 ponto percentual de market share em volume;
- Farinha de trigo doméstica: ganho de 1,3 ponto percentual;
- Massas: estabilidade de participação;
- Granolas: ganho de 6,7 pontos percentuais com Jasmine.
“A nossa receita líquida no trimestre totalizou R$ 2,2 bilhões. Esse foi o quinto trimestre consecutivo que a M. Dias Branco cresce a sua receita líquida. Os volumes cresceram 3,4% e nós aumentamos a participação de mercado nos mercados de biscoitos e granolas”, destacou o executivo da M. Dias Branco.
A declaração equilibra a leitura da receita quase estável. O avanço anual não foi destaque, mas a sequência de cinco trimestres mostra continuidade operacional. Já o crescimento de volume e o ganho de participação indicam que a empresa avançou em espaço de mercado mesmo com preço médio menor.
Jasmine, Frontera e Piraquê reforçam captura de valor
A principal diferença em relação a uma leitura apenas financeira do balanço está nas adjacências. Esse grupo inclui bolos, snacks, misturas para bolos, torradas, saudáveis, molhos e temperos. No 1T26, a receita líquida dessas categorias cresceu 10,4%, mantendo expansão de dois dígitos pelo sétimo trimestre consecutivo.
Esse avanço sugere uma M. Dias Branco gradualmente menos dependente do núcleo tradicional de massas e biscoitos. Em saudáveis, a Jasmine lançou granolas com proteína e relançou pães sem glúten, com nova formulação e embalagens. A marca ganhou 6,7 pontos percentuais de market share em granolas.
A Fit Food também reforçou a frente de saudáveis. De acordo com o relatório, a receita da marca dobrou na comparação com o 1T25, com destaque para itens como biscoito de arroz coberto com chocolate e pasta de amendoim.
Na frente de snacks, a Frontera ampliou o portfólio com tortilha sabor sal marinho e entrada no segmento de snacks de batata. O movimento aumenta a presença da companhia em ocasiões de consumo fora das categorias básicas, com potencial de margem mais atrativo.
“Lançamos produtos relevantes no mercado, como as granolas com proteína da marca Jasmine, relançamos os pães sem glúten da Jasmine com nova embalagem, nova formulação e, na marca Frontera, outros sabores, tanto nos snacks de tortilha quanto nos snacks de batata. Todos esses produtos são itens com alto potencial de crescimento e margens atrativas”, disse o diretor da M. Dias Branco.
A fala reforça o papel estratégico do portfólio. Jasmine e Frontera não aparecem apenas como lançamentos, mas como frentes de crescimento em categorias com maior potencial de valor agregado e margem, reduzindo a dependência do núcleo tradicional de massas e biscoitos.
A Piraquê também aparece como vetor de valor, com crescimento em recheados, wafers e cookies. Segundo a companhia, a marca registrou ganhos de market share tanto em relação ao mesmo período do ano anterior quanto frente ao trimestre anterior.
Em massas, a empresa lançou uma linha de massa caseira com posicionamento de preço por quilo 50% acima da categoria. O dado é relevante porque mostra tentativa de capturar valor em uma área tradicional do portfólio, combinando conveniência, proposta premium e maior rentabilidade por quilo vendido.
Sell-out e Food Service ampliam tração comercial
A melhora do trimestre não veio apenas do alívio de custos. A companhia atribuiu parte do desempenho à reestruturação da área comercial em quatro frentes de crescimento, com maior clareza de papéis, disciplina de processos e foco em sell-out.
Na prática, esse ajuste ajuda a explicar por que a empresa ganhou participação mesmo em categorias sob pressão. O avanço não depende apenas de colocar mais produto no canal, mas de aumentar giro, melhorar execução no ponto de venda e direcionar esforços comerciais para categorias e canais com maior potencial de rentabilidade.
“Isso é um sinal de que a nossa execução comercial, de produção e de distribuição evoluiu e está entregando resultados consistentes em todas as frentes de crescimento”, disse o disse o executivo.
Esse ponto desloca a leitura do balanço de um simples alívio de custos para uma melhora operacional mais ampla. A companhia atribui o avanço à engrenagem entre vendas, produção e distribuição, o que ajuda a explicar o ganho de participação em categorias sob pressão.
A campanha nacional “Mais de 1.000 Prêmios Para Você”, com marcas como Piraquê, Adria, Isabela, Fortaleza, Richester, Jasmine, Treloso, Vitarella e Frontera, ativou mais de 5 mil lojas. Segundo a companhia, as lojas participantes registraram aumento médio de 20% no sell-out na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O Food Service também foi outro ponto favorável. As categorias de farinha, farelo e gorduras cresceram com entrada de novos distribuidores especializados, time dedicado, portfólio ampliado e atuação técnica. O canal profissional reduz parte da dependência do varejo alimentar tradicional e amplia a presença da companhia fora das gôndolas mais disputadas.
Caixa, dívida menor e automação sustentam próximo ciclo
A posição financeira reforça a leitura positiva do resultado. A empresa encerrou o trimestre com R$ 1,9 bilhão em caixa e R$ 688 milhões de caixa líquido, além de resultado financeiro positivo em R$ 18,6 milhões, reflexo da posição de caixa maior que a dívida.
A estrutura de capital também melhorou:
- Caixa: R$ 1,9 bilhão;
- Caixa líquido: R$ 688 milhões;
- Endividamento total: R$ 1,4 bilhão, queda de 39,2% em um ano;
- Dívida no longo prazo: 95,4% do total;
- Rating: AAA, com perspectiva estável, reafirmado pela Fitch pelo oitavo ano consecutivo.
A M. Dias Branco também acelerou o capex. Os investimentos somaram R$ 171,7 milhões, alta de 90,6% ante o 1T25, com foco em automação, otimização industrial e eficiência energética. Do total, 72,8% foi destinado à manutenção e 27,2% à expansão.
“Estamos crescendo, gerando caixa e reinvestindo no negócio”, afirmou Cefaly.
A frase ganha peso diante do capex de R$ 171,7 milhões no trimestre. Os investimentos foram direcionados a automação industrial, otimização produtiva e eficiência energética, o que indica tentativa de transformar a recuperação de margem em produtividade recorrente.
A estrutura industrial também ajuda. No 1T26, a verticalização foi de 99,1% em farinhas e 100% em gordura, nível que amplia o controle sobre insumos relevantes e ajuda a proteger margens em um setor exposto a trigo, óleo de palma, câmbio e embalagens.
Na agenda operacional, a empresa reportou avanços preliminares em indicadores ESG, como redução de 65% nos resíduos enviados a aterros, aumento do uso de energia renovável do escopo 2 de 72% para 85% e avanço da utilização de água de reúso e chuva de 21,6% para 26,9%. Os dados ainda dependem de asseguração ao fim do exercício.
O resultado da M. Dias Branco no 1T26 reforça uma melhora operacional relevante. A empresa elevou lucro, margem e participação em categorias estratégicas em um ambiente de consumo ainda difícil. O próximo teste será transformar ganhos de eficiência, avanço de Jasmine, Frontera, Piraquê e Food Service em crescimento mais robusto de receita, sem depender apenas do alívio de custos e da recuperação de margem.



