O resultado da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) no 1T26 revelou um desequilíbrio que começa a ganhar peso dentro da estatal mineira: a companhia conseguiu cobrar mais, faturar mais e ampliar investimentos, mas já não transforma esse avanço em crescimento proporcional de lucro. O trimestre terminou com rentabilidade pressionada, dívida mais pesada e custo financeiro consumindo parte relevante da operação.
A COPASA MG (CSMG3) registrou lucro líquido de R$ 368 milhões no primeiro trimestre, queda de 14,1% em relação ao mesmo período do ano passado. O EBITDA caiu 3,2%, enquanto a margem recuou para 40,9%.
A deterioração chama atenção porque aconteceu justamente no trimestre em que entrou em vigor o reajuste tarifário de 6,56% aprovado pela Arsae-MG. A estatal elevou receita, mas o ganho acabou parcialmente absorvido pelo avanço das despesas financeiras, da inadimplência e dos custos operacionais.
A temporada de resultados mostra uma Copasa diferente daquela observada nos últimos ciclos: menos dependente do risco hídrico imediato e mais exposta ao peso do próprio endividamento.
Receita da Compasa sobe com resultado do 1T26, mas consumo perde força
A receita líquida avançou 2,5% e alcançou R$ 1,91 bilhão no trimestre. O crescimento, porém, veio quase inteiro da tarifa. O consumo praticamente parou.
O volume medido de água caiu 0,4%, enquanto o de esgoto subiu apenas 0,3%. Chuvas mais fortes, temperaturas menores e redução do período de faturamento seguraram a evolução operacional da companhia justamente no trimestre em que o reajuste entrou em vigor.
Esse detalhe muda completamente a leitura do balanço. A Copasa conseguiu arrecadar mais sem vender muito mais água. Isso enfraquece o efeito do reajuste porque o crescimento deixa de vir da operação e passa a depender quase exclusivamente do aumento da conta paga pelos consumidores.
No resultado divulgado pela Copasa no 1T26, o reajuste funcionou mais como amortecedor de pressão do que como motor real de expansão.
Resultado Copasa 1T26 revela impacto crescente da dívida sobre a estatal
O principal foco de deterioração apresentado no resultado da Copasa do primeiro trimestre apareceu no resultado financeiro. A despesa líquida saltou para R$ 74,1 milhões, avanço de 230,8% em relação ao primeiro trimestre do ano passado.
A companhia passou os últimos meses acelerando a captação de recursos para financiar investimentos, reforçar o caixa e absorver os efeitos do novo acordo firmado com Belo Horizonte, além da possível privatização. Só em debêntures, foram R$ 2 bilhões emitidos no trimestre.
O efeito começou a aparecer de forma agressiva no balanço. A dívida líquida alcançou R$ 7,1 bilhões, alta de 32% em 12 meses. A alavancagem subiu para 2,4 vezes EBITDA.
O problema não está apenas no tamanho da dívida. Está no custo dela. O cupom médio pago pela companhia avançou para 9,6% ao ano. Em um ambiente ainda pressionado por juros elevados, parte crescente da geração operacional começou a escorrer para dentro das despesas financeiras.
Resultado Copasa 1T26 também expôs deterioração operacional
A piora do trimestre não veio apenas dos juros. Os custos operacionais passaram a pressionar margem em várias frentes ao mesmo tempo.
As despesas e custos antes de depreciação cresceram 4,7% e ultrapassaram R$ 1 bilhão. Energia elétrica mais cara, aumento dos serviços terceirizados, materiais de tratamento e avanço das provisões elevaram a pressão sobre a operação.
A inadimplência começou a pesar com mais força. A provisão para perdas com clientes disparou 67,6% no trimestre. A própria companhia relacionou o movimento ao ambiente econômico mais apertado e ao elevado endividamento das famílias brasileiras.
O resultado da Copasa no 1T26 ainda carregou aumento de despesas trabalhistas, gastos ambientais e multas ligadas ao lançamento irregular de esgoto. O conjunto passou a corroer rapidamente o benefício obtido com a revisão tarifária.
Belo Horizonte virou solução e risco ao mesmo tempo
O novo acordo firmado com Belo Horizonte se transformou no principal eixo estratégico da companhia. A renovação da concessão até 2073 ampliou previsibilidade regulatória e fortaleceu o horizonte de receita futura da estatal.
Só que o contrato também elevou a pressão financeira do presente. A companhia reconheceu R$ 1,3 bilhão ligados à outorga do município e outros R$ 300 milhões referentes à recomposição asfáltica.
Ao mesmo tempo, a Copasa acelerou investimentos em obras de água, esgoto, combate a perdas e modernização operacional. O capex avançou 28% no trimestre e chegou a R$ 695 milhões.
O resultado da Copasa no 1T26 acabou deixando uma mensagem mais profunda para o mercado: a estatal ganhou horizonte regulatório mais longo e ampliou capacidade de investimento, mas entrou numa fase em que crescimento operacional passou a exigir uma estrutura financeira muito mais pesada para continuar de pé.



