A temporada de resultados das empresas referentes ao primeiro trimestre de 2026 (1T26) começa no Brasil com um alerta direto ao investidor: não basta olhar lucro — é preciso entender quem realmente ganha e quem perde nesse cenário. O mesmo ambiente de juros altos e pressão global está produzindo resultados muito diferentes entre empresas, o que aumenta o risco de leitura equivocada.
O impacto vai além dos números. Com Selic ainda elevada, conflito no Oriente Médio pressionando energia e custos, e inflação persistente, o desempenho das empresas passa a depender mais da estrutura do negócio do que do ciclo econômico. Na prática, nem todo crescimento significa ganho real.
O que realmente muda na temporada de resultados 1T26
A temporada de resultados 1T26 deixa de ser uma fotografia uniforme do mercado e passa a funcionar como um mapa de assimetrias. O investidor que olhar apenas crescimento de lucro pode ignorar o principal sinal: quais resultados são sustentáveis e quais estão sendo pressionados por custo, crédito ou demanda.
Dados do Safra indicam essa mudança. As expectativas positivas seguem altas, mas caem levemente, enquanto projeções neutras aumentam. Isso aponta para um cenário com menos direção clara e mais dispersão entre empresas, inclusive dentro do mesmo setor.
Bancos ainda lideram — mas já não crescem iguais
O setor financeiro continua sendo um dos pilares da temporada de resultados no 1T26. A combinação de juros elevados com inadimplência controlada sustenta margens robustas.
Bradesco e BTG devem capturar melhor esse ambiente, com crescimento apoiado em spreads mais altos. Já o Banco do Brasil tende a destoar negativamente, pressionado por provisões maiores.
Mesmo entre os grandes bancos, a uniformidade começa a desaparecer. Itaú e Santander devem apresentar resultados mais fracos na comparação trimestral, mas sem deterioração estrutural. O setor segue forte, mas já mostra sinais de fragmentação interna.
Commodities deixam de andar juntas no 1T26
A leitura de commodities como bloco único perde força. A volatilidade de preços e o aumento de custos ampliam a diferença entre empresas.
No petróleo, o cenário é mais favorável. O Brent elevado impulsiona geração de caixa, beneficiando Petrobras e PRIO.
Já no 1T26, os resultados de empresas de mineração e da siderurgia enfrentam um quadro mais irregular na temporada. A mineradora Gerdau, em um reflexo dos resultados do 4° trimestre de 2025, se beneficia da operação nos EUA, enquanto CSN e CSN Mineração sofrem com queda de volumes e custos mais altos.
No papel e celulose, o efeito também é misto. Apesar dos preços mais altos, fatores como câmbio e custos limitam ganhos. O setor deixa de ser previsível e passa a exigir leitura mais seletiva.
Varejo e consumo sentem o peso direto dos juros
O consumo é onde o cenário aparece com mais clareza. Juros altos, inflação de serviços e índices de confiança do consumidor oscilantes reduzem vendas e pressionam margens.
O varejo entrou na temporada de 1T26 apresentando resultados decom crescimento abaixo da inflação em muitas empresas. Ainda assim, a execução separa vencedores e perdedores.
Riachuelo, C&A e Assaí devem se destacar com melhora operacional. Já Azzas, Grupo Mateus e Natura enfrentam mais pressão, seja por demanda fraca ou dificuldade de repasse de preços.
Aqui, o efeito dos juros é direto: menos consumo, mais pressão e maior diferença entre empresas.
Setores defensivos ganham espaço na temporada de resultados 1T26
Em um ambiente de maior dispersão, setores previsíveis ganham relevância.
Energia elétrica mantém estabilidade de receita. Saúde, educação e tecnologia mostram resiliência operacional, com a última se destacando através de empresas como a Intel, que apresentou crescimento no 1º trimestre, apesar do prejuízo que ainda carrega.
Esses segmentos não se destacam pelo crescimento acelerado, mas pela capacidade de manter consistência em um cenário adverso, o que ganha peso na leitura do investidor.
Como usar a temporada de resultados 1T26 na prática
Para interpretar os balanços do 1T26, o investidor precisa ajustar o filtro:
- Evitar analisar setores como bloco único
- Priorizar geração de caixa, não só lucro
- Identificar empresas mais expostas a juros
- Avaliar capacidade de repasse de preços
- Observar dependência de commodities
- Separar crescimento pontual de resultado sustentável
Esse ajuste é essencial porque o mesmo cenário macro gera impactos completamente diferentes entre empresas.
Principais divulgações da temporada de resultados 1T26
A temporada de divulgação dos resultados referentes ao primeiro trimestre se concentra entre o fim de abril e meados de maio, com lançamentos escalonados entre os setores. Veja os principais balanços das próximas semanas:
Fim de abril (arranque da temporada)
- 27/04: Gerdau (GGBR4), Assaí (ASAI3)
- 28/04: Vale (VALE3), Hypera (HYPE3), Neoenergia (NEOE3)
- 29/04: Santander Brasil (SANB11), WEG (WEGE3), Multiplan (MULT3)
- 29/04: Suzano (SUZB3) (data confirmada via RI da companhia)
- 30/04: Irani (RANI3)
Início de maio (bancos e grandes empresas)
- 05/05: Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4), PRIO (PRIO3), TIM (TIMS3), Raia Drogasil (RADL3)
- 06/05: Vibra (VBBR3), Ultrapar (UGPA3), CSN Mineração (CMIN3), Klabin (KLBN11), Totvs (TOTS3)
- 07/05: B3 (B3SA3), Localiza (RENT3), Lojas Renner (LREN3), Sabesp (SBSP3), Hapvida (HAPV3)
- 08/05: Embraer (EMBR3), Gol (GOLL4)
Semana mais relevante da temporada de resultados do 1T26
- 11/05: Petrobras (PETR4), Natura (NTCO3), MRV (MRVE3), Energisa (ENGI11)
- 12/05: BTG Pactual (BPAC11), Braskem (BRKM5), Dasa (DASA3)
- 13/05: Banco do Brasil (BBAS3) (data confirmada via RI), Rede D’Or (RDOR3), Movida (MOVI3), Positivo (POSI3)
- 14/05: Grupo Mateus (GMAT3), Azul (AZUL4), Marfrig (MRFG3), Cosan (CSAN3), Cyrela (CYRE3)
- 15/05: Copasa (CSMG3), Simpar (SIMH3)
Por que esta pode ser a temporada mais seletiva dos últimos anos
A temporada de resultados 1T26 consolida uma mudança estrutural. O lucro deixa de ser suficiente e passa a exigir interpretação mais profunda.
O cenário combina juros altos, pressão global e custo elevado, ampliando a diferença entre modelos de negócio. Isso reduz espaço para análises superficiais e aumenta o peso da leitura fundamentalista.
Para o investidor, o efeito é direto: não basta saber se o lucro cresceu — é preciso entender de onde ele veio e se ele se sustenta. Portanto, é essa diferença que define quem realmente ganha e quem perde na temporada.



