Queda de 27,9% no lucro da Vivara no 1º tri esconde avanço de caixa após corte de estoques

O lucro da Vivara no 1T26 caiu mesmo com vendas maiores, enquanto despesas, logística e juros pressionaram o resultado.
Fachada de loja da Vivara em shopping center durante divulgação dos resultados do 1T26
Lucro da Vivara no 1T26 caiu 27,9%, mesmo com avanço das vendas, expansão da Life e crescimento da margem bruta.

O lucro da Vivara do primeiro trimestre de 2026 (1T26) caiu 27,9%, mesmo com crescimento das vendas e avanço da margem bruta. De acordo com o balanço trimestral divulgado nesta semana, a companhia encerrou o trimestre com lucro líquido de R$ 88,2 milhões, pressionada pelo aumento das despesas operacionais, da logística e do custo financeiro.

Apesar da queda, a varejista continuou expandindo lojas, ganhou participação no mercado brasileiro de joias e manteve crescimento forte da categoria Joias. O resultado, no entanto, mostrou que a estrutura necessária para sustentar essa expansão ficou mais cara em um ambiente de juros elevados e o ouro em máxima histórica.

Os principais números do trimestre mostram esse descompasso entre crescimento comercial e rentabilidade:

  • receita bruta de R$ 751,8 milhões, alta de 13,8%
  • receita líquida de R$ 595,5 milhões, avanço de 10,9%
  • margem bruta de 69,8%, crescimento de 2 pontos percentuais
  • EBITDA de R$ 96,7 milhões, queda de 2,1%
  • margem EBITDA de 16,2%, retração de 2,2 pontos percentuais

Despesas crescem acima da receita e pressionam margem

O principal ponto de deterioração do lucro da Vivara no 1T26 apareceu nas despesas operacionais. Enquanto a receita líquida cresceu 10,9%, as despesas com vendas avançaram 20,4%, consumindo parte relevante do ganho operacional produzido pelo aumento das vendas.

A pressão veio de várias frentes ao mesmo tempo. A companhia elevou investimentos em campanhas de marketing para datas consideradas estratégicas no varejo de joias, acelerou abertura de lojas e passou a absorver custos maiores ligados à nova estrutura logística criada após a inauguração do centro de distribuição no Espírito Santo.

As pressões operacionais para o lucro da Vivara no primeiro trimestre vieram de:

  • despesas com vendas: alta de 20,4%
  • despesas com marketing: avanço de 39,2%
  • frete: disparada de 85,7%
  • outras despesas comerciais: crescimento de 39,1%

O frete virou um dos maiores focos de pressão sobre o resultado. A alta ocorreu tanto pela nova dinâmica logística do centro de distribuição quanto pela redistribuição de peças entre lojas dentro do plano de reorganização de estoques.

Mesmo com margem bruta maior, o EBITDA perdeu força porque a operação passou a exigir uma estrutura mais cara para sustentar crescimento e expansão da rede.

Alta do ouro afeta lucros e muda estratégia da Vivara no 1T26

A disparada do ouro no mercado internacional também começou a alterar a dinâmica operacional da Vivara.

Com a commodity acumulando valorização superior a 50% em 12 meses, a companhia acelerou mudanças no mix de produtos e na gestão de estoques para preservar rentabilidade sem comprometer vendas.

A empresa ampliou participação de categorias como Prata Vivara e Prata/Ouro, linhas com ticket mais acessível e margens elevadas, enquanto reduziu dependência de produtos integralmente expostos ao avanço do metal precioso.

Ao mesmo tempo, intensificou o reaproveitamento de metais e reduziu compras imediatas de ouro, aproveitando estoques adquiridos em períodos anteriores.

Os efeitos começaram a aparecer nos indicadores:

  • O custo médio do ouro nos produtos acabados subiu apenas 11,7%
  • A categoria Joias avançou 18,1%
  • A margem bruta chegou a 69,8%

O movimento mostra que a companhia conseguiu preservar margem mesmo em um cenário mais hostil para o varejo de joias.

Juros altos ampliam peso das despesas financeiras

Além da operação mais cara, o ambiente financeiro passou a pressionar mais intensamente o lucro da companhia.

O lucro da Vivara no 1T26 foi impactado pelo aumento das despesas financeiras em um cenário de CDI elevado, maior custo da dívida e impacto contábil de derivativos ligados a operações em moeda estrangeira.

A companhia também começou a absorver os efeitos das debêntures emitidas em 2025, ampliando o peso dos juros sobre o resultado trimestral.

Esse cenário ajuda a explicar por que parte importante do ganho operacional produzido pelas vendas acabou sendo consumida pela estrutura financeira da companhia.

Estoque menor melhora caixa e eficiência operacional

Apesar da queda do lucro, os indicadores internos mostraram avanço relevante de eficiência financeira da Vivara no período do 1T26.

A Vivara encerrou março com 601 dias de estoque, redução de 77 dias na comparação anual. O movimento faz parte do plano iniciado no segundo semestre de 2025 para reduzir capital parado sem comprometer vendas e disponibilidade de produtos.

A estratégia envolve:

  • redução da cobertura de ouro em matéria-prima
  • reaproveitamento de componentes já armazenados
  • diminuição da quantidade de peças por loja
  • derretimento de joias com baixa rotatividade

A melhora começou a aparecer diretamente no caixa operacional e já pode ser observada no terceiro trimestre do mesmo ano.

Os indicadores financeiros ligados à eficiência avançaram no trimestre:

  • geração operacional de caixa ajustada de R$ 92,2 milhões
  • reversão do consumo de caixa registrado um ano antes
  • ROIC de 23,1%
  • redução de 77 dias de estoque

O retorno sobre capital investido (ROIC), indicador que mede a eficiência da empresa para gerar lucro com o dinheiro aplicado na operação, avançou justamente porque a companhia começou a operar com menor pressão de capital imobilizado.

Mesmo com lucro baixo no 1T26, expansão da Life continua impulsionando crescimento da Vivara

Mesmo com pressão sobre o lucro nesta temporada de resultados, a Vivara manteve ritmo forte de expansão da Life, marca que continua funcionando como principal vetor de crescimento da companhia.

A rede ampliou presença em shopping centers e ganhou relevância dentro da operação, principalmente entre consumidores mais sensíveis ao preço do ouro.

Os números da expansão mostram esse avanço:

  • 224 lojas Life ao fim do trimestre
  • abertura de 40 lojas em 12 meses
  • 503 pontos de venda no total
  • participação estimada de 24,8% no mercado brasileiro de joias

O lucro da Vivara no 1T26 acabou revelando uma companhia que continua crescendo acima do varejo tradicional, mas que passou a enfrentar um custo maior para sustentar expansão, logística e ganho de mercado em um cenário de juros elevados e ouro valorizado.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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