Filme de Bolsonaro teve rota financeira no Texas ligada ao caso Banco Master

Filme de Bolsonaro teve rota financeira ligada ao Banco Master, com repasses via empresa no Brasil e fundo no Texas, segundo registros revelados pelo Intercept.
Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em montagem sobre rota financeira do filme de Bolsonaro ligada ao Banco Master
Registros revelados pelo Intercept apontam repasses ligados ao filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. (Imagem: Edição J1 News)

O filme de Bolsonaro entrou no caso Banco Master após publicação do portal Intercept Brasil revelar, nesta quarta-feira (13/05), registros que apontam repasses milionários para financiar “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Segundo a reportagem, o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL-RJ) negociou diretamente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para a produção. O material inclui mensagens, áudio, comprovante e tabela de pagamentos analisados pela reportagem.

A revelação muda o peso público do caso porque não se limita a uma promessa de apoio financeiro. O ponto sensível está no caminho do dinheiro: parte dos valores teria saído da Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, nos Estados Unidos, e ligado à estrutura do projeto cinematográfico.

“De onde você tirou essa informação? É mentira.”

Foi assim que Flávio respondeu ao ser questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento. A negativa passou a dividir espaço com registros que, segundo a apuração, apontam uma rota de pagamento, uma empresa remetente, um fundo no exterior e personagens ligados ao entorno político de Jair Bolsonaro.

Filme de Bolsonaro passou por empresa e fundo no Texas

A rota financeira descrita pelo Intercept coloca a Entre Investimentos e Participações como remetente de parte dos recursos enviados ao Havengate Development Fund LP. O fundo aparece nos registros como destinatário de valores associados ao filme de Bolsonaro.

Segundo a apuração do Intersept, as mensagens abrangem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025. O Intercept afirma ter verificado o material por cruzamento com dados bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso Nacional e redes sociais.

A operação citada tem três pontos centrais:

  • origem operacional: Entre Investimentos e Participações;
  • destino informado: Havengate Development Fund LP, no Texas;
  • finalidade atribuída: financiamento de “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.

Segundo a publicação do Intercept Brasil, afirma que pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Um cronograma citado na reportagem previa seis parcelas nesse período, dentro de uma negociação maior para o projeto.

Esse recorte dá ao caso uma dimensão rastreável. Em vez de uma tratativa política abstrata, os registros apontam calendário, valor, remetente, destinatário e cobranças sobre pagamentos pendentes. É essa arquitetura financeira que amplia a gravidade pública da pauta.

A expressão Dark Horse Bolsonaro tende a ganhar força na busca porque conecta o nome do projeto à discussão sobre dinheiro, influência política e vínculo com o caso Master. A produção deixa de ser apenas um filme biográfico e passa a ocupar uma zona de interesse político e financeiro.

Daniel Vorcaro Flávio Bolsonaro: registros indicam cobrança direta

A relação Daniel Vorcaro Flávio Bolsonaro aparece na reportagem como eixo das tratativas. O Intercept afirma que, no fim de 2024, a viabilização da produção internacional contava com intermediário e, em 2025, evoluiu para interlocução direta entre o senador e o banqueiro.

A apuração do Intercept cita o empresário Thiago Miranda e Fabiano Zettel. Zettel é apontado nas mensagens como responsável pela parte jurídica e financeira do aporte. A reportagem também diz que ele tratou de dificuldades operacionais para remessas internacionais e de alternativas para viabilizar pagamentos.

O ponto de virada, segundo os registros, ocorreu quando a interlocução passou a envolver contato direto entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A reportagem cita cobranças por liberação de dinheiro, tratativas operacionais e mensagens de proximidade pessoal.

Em setembro de 2025, de acordo com o Intercept, Flávio enviou áudio a Vorcaro cobrando valores pendentes e alertando para risco de paralisação da produção. A mensagem mencionava compromissos com elenco, direção e equipe do longa.

“Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo.”

Ouça o áudio em que Flávio Bolsonaro cobra Daniel Vorcaro por repasses ao filme:

A frase atribuída a Flávio funciona como marcador do grau de interlocução descrito na reportagem. A cobrança não aparece como ruído lateral, mas como parte da tentativa de manter o fluxo financeiro de uma produção com impacto político direto.

Pelos registros citados, atrasos nos repasses afetariam contratos, equipe e andamento da produção. O financiamento, nesse contexto, não aparece como simples patrocínio sem consequência operacional.

O caso envolve ainda uma camada de bastidor político. Eduardo Bolsonaro e Mario Frias são citados na articulação do projeto, enquanto Vorcaro aparece como financiador de uma obra voltada à construção narrativa sobre Jair Bolsonaro.

Banco Master e Bolsonaro ampliam custo da pré-campanha

A conexão Banco Master e Bolsonaro cresce porque a revelação foi publicada poucos dias depois de uma nova fase da Operação Compliance Zero. Em 7 de maio de 2026, a Polícia Federal cumpriu mandados na investigação sobre suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional ligados ao Banco Master.

O senador Ciro Nogueira (Progressistas, PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, apareceu entre os investigados. A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e incluiu mandados de busca e apreensão, além de bloqueio de bens, direitos e valores.

Segundo a CNN Brasil, relatório da Polícia Federal apontou que Ciro teria recebido “vantagens indevidas” de Daniel Vorcaro. A defesa do senador afirmou à Agência Brasil que repudia ilações de ilicitude, nega participação em atividades ilícitas e diz estar à disposição para esclarecimentos.

Esse contexto pesa sobre a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro porque a revelação das conversas não aparece isolada. Ela chega em sequência a uma operação que já havia aproximado o caso Master de um aliado relevante do campo bolsonarista no Congresso.

O efeito político não depende de concluir culpa ou crime. O dado jornalístico está no acúmulo: primeiro, a Polícia Federal avança sobre suspeitas envolvendo Ciro Nogueira e Vorcaro; depois, registros publicados pelo Intercept atribuem a Flávio contato direto com o mesmo banqueiro para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Flávio já havia negado vínculos entre a direita e o Banco Master. Segundo o Intercept, ao comentar em março uma doação de R$ 3 milhões feita pelo cunhado de Vorcaro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, o senador afirmou que não havia vinculação, contrapartida ou contato pessoal.

“Sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive.”

A nova apuração cria tensão porque os registros descritos apontam contato direto de Flávio com Vorcaro em torno de um projeto de alto valor simbólico para o bolsonarismo. A contradição pública passa a ser um eixo central da repercussão.

O que os registros indicam, segundo a apuração:

  • negociação de US$ 24 milhões para o filme de Bolsonaro;
  • repasse de pelo menos US$ 10,6 milhões no cronograma descrito;
  • pagamentos entre fevereiro e maio de 2025;
  • rota com empresa remetente no Brasil e fundo no Texas;
  • cobrança direta atribuída a Flávio Bolsonaro;
  • ausência, no material publicado, de comprovação da quitação integral do valor negociado.

O limite factual é decisivo. Os registros citados pelo Intercept indicam pagamentos, cobranças e uma rota financeira para o projeto, mas não autorizam concluir, pelo material publicado, que os US$ 24 milhões foram integralmente quitados. A própria reportagem separa o valor negociado dos pagamentos identificados.

Ainda assim, o impacto público já está posto. O filme de Bolsonaro agora aparece ligado a uma sequência de pagamentos internacionais, a um fundo no Texas e ao nome de Daniel Vorcaro, figura central da crise do Banco Master.

Para a pré-campanha de Flávio, a consequência é mais ampla do que o desgaste de uma denúncia pontual. A cinebiografia, que poderia circular como peça de imagem do ex-presidente, passa a carregar uma pergunta de origem financeira: quem bancou o projeto, por qual rota e com que grau de participação do entorno de Jair Bolsonaro.

Foto de Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr. é jornalista e empreendedor, fundador do Sistema BNTI de Comunicação e dos portais Economic News Brasil, Boa Notícia Brasil e J1 News Brasil.

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