A redução da fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) começou a produzir um efeito colateral fiscal para o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A aceleração na concessão de benefícios elevou em R$ 11,5 bilhões a projeção de despesas previdenciárias de 2026.
O avanço pressiona o bloqueio de gastos do Orçamento justamente no momento em que o Planalto tenta evitar desgaste político às vésperas da campanha eleitoral. Quanto mais benefícios entram na folha do INSS, menor fica o espaço disponível para investimentos, custeio da máquina pública e emendas parlamentares.
O problema ganhou peso porque a redução da fila virou prioridade política do governo após o recorde de 3,1 milhões de requerimentos em espera transformar o tema em uma das principais armas da oposição contra Lula.
Governo adiou ajuste fiscal enquanto acelerava redução da fila do INSS
A equipe econômica já esperava aumento relevante das despesas previdenciárias desde o início do ano, mas decidiu retardar parte do ajuste fiscal enquanto avaliava o impacto da força-tarefa montada para reduzir a fila do INSS.
Em março, o governo anunciou bloqueio de apenas R$ 1,6 bilhão em verbas de ministérios e investimentos públicos, valor considerado insuficiente pelo mercado financeiro.
Segundo aponta o jornal Folha de S.Paulo, integrantes da área econômica chegaram a discutir um congelamento próximo de R$ 4 bilhões. A decisão, contudo, acabou revertida pela Junta de Execução Orçamentária (JEO), que preferiu aguardar números mais detalhados sobre o avanço das concessões.
A escolha, além disso, permitiu ao governo evitar desgaste político imediato no início do ano eleitoral, mas empurrou a pressão fiscal para os meses seguintes.
Inclusive, foi exposta uma uma contradição delicada dentro da estratégia do Planalto. A redução da fila melhora a resposta política do governo sobre o INSS, mas acelera justamente a despesa obrigatória mais sensível do Orçamento federal.
Concessão de benefícios disparou após ações para reduzir fila do INSS
Segundo documento preliminar relevados, a projeção de gastos com benefícios previdenciários subirá de R$ 1,066 trilhão para R$ 1,077 trilhão.
A revisão foi baseada no comportamento das despesas entre março e abril, período em que as primeiras ações para acelerar análises começaram a surtir efeito.
A folha mensal do INSS avançou rapidamente:
- fevereiro: R$ 79,9 bilhões;
- março: R$ 81,8 bilhões;
- abril: R$ 82,6 bilhões.
O crescimento ganhou relevância porque os reajustes anuais dos benefícios já haviam sido aplicados em janeiro. Isso significa que a alta recente decorre principalmente da entrada de novos segurados no sistema.
No fim de abril, a fila caiu para 2,6 milhões de requerimentos.
O governo passou a tratar o tema como prioridade após Lula identificar desgaste crescente em torno do INSS. Isso porque a fila recorde, que chegou a superar 2,8 milhões de pedidos em espera, contradizia diretamente uma das promessas feitas pelo presidente durante a campanha de 2022.
Internamente, técnicos chegaram a simular cenários com impacto de até R$ 30 bilhões caso a regularização das concessões avançasse de forma mais intensa.
Salário-maternidade amplia pressão sobre gastos da Previdência
Além da redução da fila do INSS, outro fator passou a pressionar as contas previdenciárias: o avanço acelerado das concessões de salário-maternidade após mudanças ligadas a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os técnicos do governo estimam impacto adicional próximo de R$ 5 bilhões neste ano.
Os números mostram forte expansão:
- janeiro de 2025: 48,9 mil benefícios;
- dezembro de 2025: 94,7 mil benefícios;
- crescimento de 93,7%.
Os pedidos também aumentaram:
- 116 mil requerimentos em janeiro;
- 161,6 mil em novembro.
O avanço ampliou a pressão sobre uma despesa que já vinha acelerando com a regularização das análises do INSS.
Para evitar um bloqueio imediato mais agressivo, a equipe econômica ampliou o chamado “faseamento” das despesas. O mecanismo segura parte da execução orçamentária enquanto o governo recalcula os impactos fiscais da alta nos benefícios.
No último relatório, essa contenção adicional já se aproximava de R$ 40 bilhões.
Governo chega ao ano eleitoral pressionado entre gasto social e ajuste fiscal
A redução da fila do INSS ajudou o governo Lula a responder politicamente a uma das maiores fragilidades da gestão na área social. O problema é que a aceleração das concessões começou a pressionar diretamente o espaço disponível dentro do arcabouço fiscal.
A equipe econômica adiou parte do ajuste no início do ano para evitar desgaste político maior antes da campanha eleitoral. Agora, com as despesas previdenciárias avançando, o governo terá de ampliar bloqueios no Orçamento justamente quando cresce a pressão por investimentos, liberação de emendas e expansão de gastos sociais.





